“3%”: série da Netflix tem potencial, mas tropeça na realização


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Candidatos em prova do Processo na série 3%, primeira produção brasileira da Netflix

Paul Verhoeven, diretor de “Robocop” e “O Vingador do Futuro”, declarou numa entrevista recente que via um certo esgotamento da ficção científica e profetizou seu desaparecimento. Segundo ele, tudo no gênero já foi explorado nos últimos 20 anos. No que se refere à repetição, o cineasta tem razão. E a estreia de 3% na Netflix, depois de cinco anos circulando de forma independente no YouTube, sofre um pouco com a comparação com outras histórias distópicas que fizeram sucesso antes, como Jogos Vorazes, Elysium e Divergente. Apesar de trazer conceitos interessantes, sua proposta sai em desvantagem por conta do timing ruim.

Para o público de hoje, a sensação é a de que já vimos esse filme várias vezes: um mundo onde a maioria vive com poucos recursos e com a esperança de fazer parte da seleta lista de escolhidos para estar onde há abundância. No caso da atração brasileira, sair do Continente, também conhecido como “lado de cá”, para ser feliz no Maralto, o “lado de lá”. A peneira, que só permite a entrada de 3% da população, é feita com uma rigorosa bateria de provas conhecida como o Processo, aos quais os jovens de 20 anos só podem se candidatar uma vez.

Mas é certo falar no desaparecimento da ficção científica justamente quando uma série como Black Mirror, agora também da Netflix (e portanto mais popular por aqui), causa tanta comoção? Particularmente, acredito que o problema maior é insistir numa abordagem que privilegia o artificialismo quando o que importa é o elemento humano. Não por acaso, esse é o maior trunfo da série inglesa, que entende que a tecnologia é apenas o denominador comum para tecer contos de terror, suspense e drama sobre a condição humana de qualquer época.

Não podemos descartar o quão divertido e  fascinante pode ser criar um mundo absolutamente novo no futuro, mas não é esse o caso de 3%. O design pretensamente futurista e o figurino impessoal (uniformes para os selecionadores e para os candidatos) não causam impacto nem são especialmente memoráveis. A história, por sua vez, acaba prejudicada pelo tom frio e levemente automatizado com que a trama é conduzida, e mesmo atores excelentes como João Miguel e Luciana Paes acabam prejudicados.

Criada por Pedro Aguilera, na época um universitário inspirado pela disputa cruel do vestibular, a atração ganhou contornos mais amplos, que abarcam questões como desigualdade social e meritocracia. Infelizmente esses conceitos ficam restritos ao campo do discurso. Nunca temos uma visão geral da vida no Continente além de umas poucas vielas e umas roupas esfarrapadas bem caricatas, assim como não sabemos ao certo sobre a rotina no Maralto.

Não temos detalhes tampouco sobre a Causa, a resistência ao sistema, que pretende, supostamente, interromper uma tradição baseada na contínua opressão da maioria da população. Ao fim dos oito episódios, não temos ideia do quanto ela é influente nessa sociedade – somos informados apenas de que ela é considerada uma atividade criminosa. E o problema é justamente esse, “somos informados” mas nunca percebemos ou sentimos essa urgência.

Poderia ser um recurso narrativo se mais adiante fôssemos surpreendidos por uma revelação de que as coisas não são bem assim. Mas fica parecendo que é por falta de dinheiro mesmo (seria o orçamento enxuto o motivo?). O fato é que a construção desse universo é fundamental para aumentar o envolvimento do espectador com a história, para dar profundidade a cada personagem, para dar dimensão aos acontecimentos que se desenrolam. Ou o Processo vira uma mera disputa individual. E por que deveríamos nos importar com isso?

João Miguel é Ezequiel, líder do Processo na série 3%

João Miguel é Ezequiel, líder do Processo na série 3%

Atenção: a seguir, o texto contém alguns spoilers

Em Jogos Vorazes, por exemplo, a necessidade de passar pela competição é muito clara: é jogo de vida ou morte. Mas Katniss tem uma importância ainda maior no torneio, ela representa todo um distrito subjugado pela Capital. E seu ato de insubordinação é capaz de insuflar uma revolução. Aqui, a motivação de personagens como Fernando (Michel Gomes), Marco (Rafael Lozano) e Joana (Vaneza Oliveira) são estritamente pessoais. O mesmo acontece até com Michele (Bianca Comparato), infiltrada da Causa na competição. Já o ambíguo Rafael (Rodolfo Valente, destaque entre um elenco de atuações bastante irregulares) permanece um mistério do início ao fim, no mau sentido.

A série mantém um ritmo bom nos três primeiros episódios, focados basicamente em provas do Processo e flashbacks dos principais personagens, um por vez. Nos episódios 4 e 5, porém, é quando 3% encontra sua melhor forma. Em Portão, embora Marco tenha destaque, a ação é concentrada no grupo e ganha uma interessante escalada de tensão – embora o resultado seja comprometido por algumas exposições desnecessárias (“Isso aqui é uma sociedade em miniatura”). Novamente, a revelação de uma faceta impiedosa dos personagens em situações extremas lembra outras situações já vistas – Ensaio Sobre a Cegueira e The Walking Dead, só para citar dois casos bem distintos.

Em Água, a série tem seu momento mais sólido, com um grande flashback que interrompe a progressão da história para nos dar algumas informações essenciais sobre Ezequiel (João Miguel), líder do Processo. Mesmo que o público já tenha deduzido a relação dele com o menino que ajuda no Continente, é bonito de ver a série apostar num roteiro mais coeso e num tom mais emotivo – é a jornada dele com a mulher, Julia (Mel Fronckowiack), que nos dá outra perspectiva sobre o personagem.

Suas ações futuras, porém, em especial durante uma guinada importante no episódio 7, continuam a embaralhar os sentimentos do público em relação ao chefe da seleção. A questão é que não se trata de surpreender a plateia com twists, mas de dar indicações confusas e nunca satisfatórias, pois fica praticamente impossível dizer quais são suas reais motivações.

A partir daí, porém, a série, que tem direção geral de César Charlone (Cidade de Deus), entra numa cadência descendente, até o desfecho num grande anticlímax. O confronto final entre Michele e Ezequiel não empolga, mesmo contendo uma grande revelação; o “dilema” de Rafael parece fora de contexto; e as reviravoltas envolvendo Fernando e Joana não se justificam. O grande gancho para uma possível segunda temporada fica nas mãos de Aline (Viviane Porto), funcionária designada para investigar a condução do Processo que termina numa situação complicada.

Resta saber se o interesse despertado por esses oito episódios será suficiente para garantir a renovação. Se os tropeços na execução forem superados, há elementos com potencial para serem explorados com mais força. Que 3% consiga se desvencilhar dessas armadilhas e seja criadora de seu próprio mérito.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas