A arte de encontrar um bom lugar para se hospedar


Você passaria a noite num hostel-trem? Não foi minha primeira escolha, mas fui parar num desses em Amsterdã

Já contei aqui, sou a louca do planejamento de viagem: assim que escolho o destino vasculho essa internet de meu Deus atrás de todas as indicações de quantos dias ficar em cada lugar, melhor meio de transporte entre cada parada, forma mais prática de me deslocar entre aeroporto/rodoviária/estação e a cidade, se vale a pena comprar passe… O mais difícil para mim, no entanto, é sempre definir onde ficar. Pego dicas com amigos, leio muitos blogs, checo reviews nos sites de reserva e ainda assim é sempre uma loteria.

Já fiquei em áreas mais afastadas dos pontos turísticos e amei. Já fiquei pertinho de tudo e me arrependi. Já fiquei em hotelão com café da manhã horrível. Já fiquei em hostel-trem nada confortável (imagine cama e banheiro de trem. Então), numa noite extra em Amsterdã, depois de perder um ônibus noturno, com a atendente mais atenciosa do mundo. Concluí que escolher hospedagem não é ciência, é uma arte mesmo. Uma hora a gente acerta, outra hora a gente… aprende!

Nunca fiz questão de luxo (minha condição de jornalista não permite) e, quando viajo em grupo, costumo preferir pousadas jeitosinhas à impessoalidade de um hotel de rede. Mas foi quando passei a viajar sozinha, em 2012, que o bicho pegou. Afinal, eu tinha que decidir tudo completamente sozinha. Se fosse um lugar bom, ótimo, mas e se não fosse? Pessoalmente nunca tive problemas de ter que trocar de lugar ou iria ficar ainda mais irritada de gastar meu precioso tempo de viagem resolvendo esse pepino. Principalmente se o relógio corre em outra moeda, certo? Mas é sempre uma área do meu planejamento que me exige muita pesquisa e um certo feeling.

Meu primeiríssimo critério é custo-benefício. Já fui de procurar o mais barato, porque meu lema é economizar o máximo possível (em compras, refeições etc.) para gastar na viagem em si. Hoje busco o mais barato possível. Na minha primeira hospedagem solo, fiquei num quarto para 20 pessoas em Londres pelo preço de 10 libras a noite. Sim, era um preço incrível para uma cidade cara, e eu nem achei ruim ficar em Bayswater – eu estava pertinho do Kensington Gardens, ao lado de Notting Hill e tinha duas estações de metrô de linhas diferentes ao meu lado. A vizinhança era bem simpática, várias lojinhas e restaurantes. Mas eu dei muita sorte de não encontrar o quarto lotado e até conhecer gente legal. Mas imagina um banheiro para esse povo todo? Os serviços também não eram muito legais, o pessoal da recepção nem se fala. Noves fora valeu a pena, mas hoje acho que eu abriria a carteira um pouquinho mais.

Em Amsterdã, escolhi um hostel ao lado do Vondelpark. Conheci muita coisa caminhando (mesmo com um pé torcido), inclusive a Ilha dos Museus, e não me arrependo, já que o mais bonito da cidade não está no centro – bastante acessível de tram ou bicicleta. Já em Barcelona, também fiquei num bairro mais afastado, perto da Casa Milà (parte do nosso roteiro inspirado em Gaudí). E, apesar de estar perto de uma das principais avenidas da cidade, a Avinguda Diagonal, senti falta de estar mais perto do agito, principalmente à noite. Hoje, ficaria numa região mais central.

Mesma coisa em Buenos Aires. Eu me deixei levar pelo hype, aqueles textos “melhor lugar para se hospedar” e escolhi o Palermo Soho. Realmente, é uma região tranquila e agradável, mas nada favorável a uma primeira ida à cidade. Da próxima vez, quero ficar bem no meio da muvuca. Mentira. Só numa localização mais acessível. Em Dubrovnik, na Croácia, escolhi uma hospedagem mais cara porque queria ficar dentro da parte murada da cidade – é possível poupar umas kunas ficando mais longe, mas, além de depender de ônibus, você perde parte da experiência.

Vista do meu hostel em Ronda, na Espanha: de frente para a impressionante Ponte Nova

Às vezes, a gente dá sorte. Em Ronda, uma das cidades espanholas que mais amei conhecer, o hostel que escolhi era uma casa antiga e espaçosa, com uma das vistas mais incríveis que já tive, de frente para a Ponte Nova, o principal cartão-postal de lá. Depois de perder o trem e chegar mais tarde que o previsto, dei de cara na porta e precisei esperar o responsável voltar. Mas quando cheguei ao quarto meu queixo caiu ao ver que a minha varanda era um mirante particular. Sério, posso dizer minha varanda, porque eu estava sozinha ali – minha única e quietíssima colega de quarto só conheci à noite, na hora de dormir. Acho que foi o melhor lugar que já fiquei na vida, e, mais uma vez, não estou falando de luxo ou algo do tipo.

Às vezes, a gente também dá azar. Na minha ida a Frankfurt, dei de cara com a maior furada de todos os tempos. Escolhi um lugar perto da estação mesmo com preço ok – geralmente evito esse tipo de localização, mas, como eu ia ficar só uma noite, achei que não teria grandes problemas. Foi decepção atrás de decepção. Em primeiro lugar, meu andar estava em obras e o cheiro de tinta era insuportável, além de a porta do banheiro estar com defeito e não fechar direito. Em segundo, a recepção não tinha um guarda-volumes para guardar as malas dos hóspedes após o check-out: elas ficavam jogadas no chão ao lado do balcão mesmo. Quando voltei, minha mochila estava largada lá e ninguém me perguntou nada quando fui buscá-la. Ou seja… Sem contar no entorno do prédio, cheio de inferninhos e uma galera bastante esquisita nas esquinas. Nunca mais.

Na última viagem, em Berlim, também passei por uma situação chata. Durante uma troca de quartos (por causa de uma falha na atualização na reserva feita pelo Booking), dei falta de uma nécessaire que ninguém localizou – nem se responsabilizou, porque nem eu sabia se havia esquecido em cima da cama ou se ela já havia sumido quando deixei minha mochila (sem cadeado) guardada no depósito em que todo mundo entrava e saía sem muito controle. Fora isso, o hostel foi ótimo: localização, atendimento, limpeza. Voltar ou não voltar, eis a questão? Na dúvida, vou de cadeado na próxima vez.

Nessa saga de tentativa e erro, o que tento fazer é planejar meu roteiro primeiro, destrinchar a cidade em trechos que pretendo visitar dia a dia e tentar achar a região mais viável para me deslocar, de preferência a pé sempre que possível. Ganha bônus o hostel com uma estação de metrô perto. Daí pesquiso preços (estabeleço um teto para gastar) e filtro pelas notas de usuários (sim, ficar sem wi-fi é um saco, mas levo em conta principalmente segurança, atendimento, limpeza) e indicações de amigos (especialmente em relação aos bairros, se é muito deserto à noite, se é contramão demais etc.).

Até leio algumas indicações de “onde ficar”, mas tendo em vista o que vale para a minha necessidade: quando estou a passeio, principalmente com pouco tempo, não terei uma experiência “como um local”, como muita gente tenta vender. Em certas situações pode ser melhor ficar no centrinho; em outras, vale economizar um dinheirinho e usar transporte público. Em geral, prefiro hostels menores, onde os funcionários são mais atenciosos e dão dicas preciosas de passeios e restaurantes, a relação é menos formal. Mas também é bom ficar preparado para algumas restrições, de horários (muitos não têm recepção 24 horas), de refeições (sério, quem disse que leite e cereal pode ser vendido como café da manhã incluído?) e por aí vai.

Como se vê, ainda sou iniciante nessa arte, mas sempre tentando me aprimorar. E você?

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas

  • Viviane

    Eu sempre me preocupo com hotéis limpos e seguros, o resto eu vou me adaptando também. No fundo no fundo é muito questão de sorte!

    • Verdade, Viviane! Quando a gente não dá sorte, vira história pra contar 🙂