Aprendendo a compor com Chopin


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Essa é a famosa estátua do compositor Chopin que fica na Praia Vermelha, Rio de Janeiro/RJ

Não, ainda não será hoje que aprenderemos a compor música neste blog – principalmente algo que seja meramente parecido com a obra do compositor Frédéric Chopin (1810-1849). O que temos aqui é um pequeno compilado de fotos da estátua em homenagem a ele, situada na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, e que retratam de forma quase didática como pensar a composição da foto é importante para seu resultado final.

“Ok. Mas, primeiramente, o que é composição?”. Posso dizer que é o desenho final da foto. Em fotografês, relação entre fundo e objeto, distribuição de planos, proporção e subjetividade. E aí você me diz: “Eita, que é muita coisa!”. É, sim. Mas é mais fácil ver na prática. Vamos começar?

Modo retrato ou paisagem?

Essa é quase uma pegadinha: retrato para retrato, paisagem para paisagem, certo? Nem sempre. Tudo depende da intenção (subjetividade). Se você quer destacar a altura do objeto, vá de modo retrato. Se você quer demonstrar como o objeto se integra à paisagem, vá de modo paisagem.

Reparem que mesmo sendo fotos bastante parecidas, as duas são completamente diferentes. Se ficar na dúvida de qual seria o melhor modo, faça dos dois jeitos. Agora, a regra do “nem sempre” precisa ser usada com cautela quando o objeto fotografado é humano: modo retrato ajuda a compor uma foto mais completa das pessoas, “fotos de corpo inteiro” ou quase inteiro são mais agradáveis; enquanto o modo paisagem pode deixar uma perspectiva estranha – ou pior, decepar o fotografado de forma bem esquisita.

Trabalhando os planos da foto

Primeiro, definindo planos: é onde as coisas se encontram em termos de distância. Podem existir vários planos numa mesma foto, mas geralmente se pensa em 3 deles. Ainda está difícil? Exemplo rápido. Imagine comigo: digamos que sua rua seja curta e tenha cinco postes, do início até o fim, e sua casa está bem em frente ao terceiro poste. Se você estiver perto do primeiro poste, tudo o que estiver perto dele estará em primeiro plano; a sua casa, no meio da rua, estará em segundo e aquele poste com a lâmpada queimada no fim da rua é o terceiro plano.

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Na foto de exemplo: Chopin, muso, está em primeiro plano. A copa da amendoeira ali atrás dele, com seus galhos e folhas secos, compõem o segundo plano – dá para ver que é uma árvore, é reconhecível. Nessa mesma área ainda dá para ver a bandeira nacional (para quem desconhece a região, ali é uma área militar). E o terceiro plano é o Morro da Urca – a pedra gigante que acabou completamente desfocada, embora reconhecível pelo seu tamanho e posição – os alpinistas, coitados, viraram dois pontinhos brancos na pedra.

Em tempo: nem toda foto precisa ser focada no primeiro plano. O foco, aliás, será seu grande aliado nessa jornada. Quando você pode escolher em qual plano focar, faz uma diferença enorme na foto. A graça está em brincar com isso.

Regra dos terços e descentralização

Então você tira a foto do amiguinho e ele reclama que não tá centralizado. Existem duas saídas: refazer a foto do jeito que ele quer OU explicar que ele fica melhor ali, no cantinho, porque é um dos lugares mais importantes da foto: inconscientemente, os olhos tendem a procurar esses pontos “e, veja só!, se você está nesse ponto de interesse, você fica mais legal!” . Sinceramente, prefiro a primeira opção.

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Mas isso acontece mesmo, nossos olhos procuram informações nos chamados Pontos de Ouro (imagine um jogo da velha – # – sobre a foto; onde as linhas se encontram é um ponto de ouro). Nesse caso, se o objeto fica no centro do quadrado menor, ele está perfeitamente centralizado – mas a composição estará estática (leia-se sem graça). Se, ao invés disso, você colocar o objeto em algum dos pontos de ouro, criará uma dinâmica e fará a pessoa olhar para toda a sua foto em busca de elementos ao invés de só bater o olho e passar para a próxima.

Profundidade de campo

Essa é para entender como as lentes interferem na foto. Lembra do conceito de planos? Então, cada tipo de lente favorece um tipo de plano (e acaba desfavorecendo outro). Uma grande angular ajuda a capturar uma grande paisagem porque valoriza o plano de fundo – o maior e mais longe. Para tanto, o que está em primeiro plano (mais perto da câmera) acaba ficando sem detalhes ou fora de foco. Além disso, é quase impossível fazer um efeito de fundo desfocado com essas lentes. O inverso acontece com as lentes zoom. Elas valorizam tanto o primeiro plano que o fundo fica completamente difuso (desfocado).

 

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Para câmeras que não tem recursos de zoom, há o famoso filtro de blur – tanto no software de computador quanto naquele aplicativo superusado – que simulam o efeito de profundidade de campo rasa. Infelizmente, ainda não há um filtro eficiente para desfazer esse efeito: uma vez que está registrado assim, é impossível dar foco em algo que não tenha sido previamente focado antes.

“Tá, muito legal. Mas o que interfere na minha foto?” . Ao usar conscientemente a profundidade de campo, estamos diretamente escolhendo o que queremos mostrar: ao focar em um objeto e deixar outros desfocados, selecionamos o nosso destaque. Se está destacado, é porque é mais importante. A partir daí vem a subjetividade e a diferença entre criar uma foto que as pessoas irão admirar, analisar ou apenas ver.

A influência da cor

Basicamente, as cores nos remetem a emoções. Quanto mais cores e mais alegres, vivas e quentes elas forem, mais feliz será o resultado da sua foto. Por que dias nublados são sempre mais tristes? Porque sentimos falta do calor do sol. A luminosidade que chega para a gente é mais azulada, mais fria, e tudo tende a parecer menos convidativo. Pode-se passar as férias inteiras reclamando disso ou fazer algo a seu favor. Acertar o balanço de branco da câmera ajuda a recuperar as cores para um resultado menos deprê, ou dá pra mergulhar de cabeça no sentimento de melancolia e fazer fotos inspiradoras.

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E, claro, não podia deixar de falar das fotos em preto e branco. São minhas favoritas, e por um motivo bem bacana: quando se retira a informação de cor, percebe-se muito mais as formas. Faça o teste: fotografe uma flor bem vermelha e depois faça uma cópia exata dessaturada (“sem cor”, em preto e branco); observe atentamente as duas e veja o que mais lhe chamou a atenção nelas. Então, se for se arriscar a fazer algumas fotos em preto e branco, lembre-se de pensar em formas, texturas e contrastes de luz e sombra.

Ângulo e ponto de vista

Essa é difícil de explicar, mas muito mais fácil de mostrar. O ângulo que você põe a câmera pode te ajudar a ficar mais alto ou mais gordo, ou te mostrar detalhes que antes você não tinha percebido. Uma vez eu reparei nos beirais pintados à mão que haviam resistido há décadas apenas porque me atrevi a olhar para o alto antes de entrar numa casa. É possível criar fotos mais interessantes se, ao invés de fotografar de modo convencional, experimentar algo um pouco diferente. Virar a câmera para o alto ou incliná-la para uma lateral pode trazer algum resultado divertido.

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Ponto de vista é quase autoexplicativo. Parte-se do princípio que todos veem com os olhos voltados para frente, a 90° da linha do chão. Quebrar essa perspectiva é, com certeza, um dos jeitos mais fáceis e interessantes de conseguir fotos mais dinâmicas e atrativas. “Mas como eu vou mudar o ponto de vista de um monumento?”. Não é tão simples, mas tampouco é impossível. Se todo mundo fotografa o Chopin admirando a praia, ou olhando o Pão de Açúcar ali do lado, porquê não vê-lo “de baixo para cima” e observar os detalhes de seu rosto esculpido? Ou procurar ver o que ele estaria observando naquele momento?

Acrescentando elementos

Ok, nosso objetivo é fotografar o Chopin. Uma estátua, paradona lá no meio da praia. Não dá para movê-lo para nenhum outro lugar, nem dá para colocar nada nele para ser mais interessante. “Já testei todos os ângulos possíveis, mas ainda não estou satisfeita(o). Como é que eu faço uma foto legal e diferente das outras?” .

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Observar os transeuntes e a forma como interagem com o objeto e o ambiente ao redor é a melhor forma de descobrir como acrescentar elementos. Sempre tem um pombo pousado perto (ou na cabeça) dele, pessoas dos mais diferentes tipos circulam por ali, a pose dele pode te inspirar a uma “interação” artística (nada de vandalismos, hein! Comportem-se!), uma bicicleta deixada apoiada perto dele… Tudo vai depender do momento. Mantenha-se atento e tenha sua câmera a postos, um bom clique pode surgir a qualquer hora.

Espero que a ajuda inspiradora do divo Chopin tenha ajudado a compreender melhor os conceitos para uma composição mais elaborada de fotografia. Uma dica: dá para fazer o mesmo experimento que eu fiz com a estátua com qualquer outro monumento ou até mesmo com objetos simples. Se não quiser perder tempo numa viagem estudando como fazer uma fotografia, mesmo dentro de casa dá para exercitar a composição – que nada mais é do que estar atento ao que está ao seu redor e procurar enxergar as coisas de uma forma diferente da habitual.

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About Geisy Almeida

Formada em Fotografia, fã de boas estórias que sejam bem contadas - não importa se em forma de livro, filme, novela ou bate-papo. Curiosa e interessada em muitos assuntos, às vezes viajo na maionese.