Caminhando às margens do Tâmisa: vendo Londres de outra forma


Então você está em Londres, a segunda cidade mais visitada do mundo atualmente (perdendo para Bangcoc, na Tailândia), e lá está cheio de monumentos e atrações turísticas, sempre lotados de turistas, e muitos habitantes da cidade circulando de um lado para o outro. Bate aquela dúvida: e agora? Faço o programão de turista e fico horas na fila ou me arrisco a transitar como um local (mesmo sem ter feito o dever de casa e pesquisado como me locomover, o que ver etc.)?

Encontrar coisas assim no caminho: não tem preço!

Na base do tentativa e erro, acabei indo dois dias da minha viagem para a região: um foi dedicado aos pontos turísticos e o outro foi para andar a pé, sem pressa, para descobrir coisas legais no caminho. O trecho que fui fica exatamente na curva do Tâmisa, o maior rio inglês, entre as pontes de Westminster e Tower Bridge – muito pouco perto dos 346 Km de extensão dele. Mas ali, naquele trecho, ficam atrações turísticas históricas e mundialmente famosas. Eis o que vi.

Dia 01

Westminster e o Big Ben

Todo mundo já ouviu falar que as Casas do Parlamento e do Big Ben (provavelmente  prédio mais famoso, maior cartão-postal da cidade) ficam em Westminster. O Big Ben, aliás, é só o sino da torre do relógio, mas muita gente confunde e acha que é a torre, o relógio ou toda a construção. Dá até um arrepiozinho ouvir as badaladas marcando a hora certa…

Apesar de sair “no pé” do relógio, para ter uma foto da fachada é preciso atravessar a ponte

Saindo na estação do metrô de mesmo nome, cheguei a pensar que saltaria bem próximo do monumento – mas, na verdade, eu me senti saindo de dentro do Big Ben! Subi as escadas e quando me virei, procurando alguma placa ou ponto de referência, lá estava ele, na minha frente (praticamente “saindo” da minha cabeça!). Daí foi só controlar a emoção e procurar o melhor ângulo para tirar uma foto legal – eu recomendo atravessar a rua ou percorrer toda a ponte até a outra margem para ter toda a fachada em um a única foto, mas se quiser tirar foto só com o relógio, é tranquilo de fazer uma selfie ali. De perto, vale notar a quantidade de detalhes no prédio, especialmente a quantidade de vidros e janelas.

 

Abadia de Westminster

É bonita demais, não é?

A Abadia de Westminster está a poucos metros de distância das casas do parlamento, mas eu só a visitei externamente. Local da coroação dos reis e rainhas do Reino Unido (e onde foram celebrados os casamentos reais da rainha Elizabeth II e, mais recente, do seu neto William), tem visita paga (e o preço é salgado) e não se pode filmar nem fotografar no interior dela. Portanto, naquele dia, eu fui lá e fiz igual ao Júlio César: “vim, vi e venci”; fotografei a entrada e voltei para a outra atração – que, à época, me pareceu mais empolgante.

 

London Eye e passeio pelo rio

Um dos ícones de Londres, já apareceu em vários filmes. Chegamos lá e fomos direto ao guichê comprar o ingresso, onde fiz um bom negócio: comprei ingressos para a London Eye e para o museu de cera Madame Tussauds, além de um tour pelo rio depois de sair da roda-gigante panorâmica (há outras opções de pacotes de ingressos, e até de comprar para visitar apenas a atração, mas optei por esse). A subida é lenta e gradual,  a roda nunca para de girar. Então você sobe com ela em movimento e espera ela dar a volta completa, enquanto observa a cidade.

Da ponte já dá pra ver!

Lá de cima pode ser até um pouco monótono, mas eles pensaram em tudo: enquanto esperamos chegar no ponto mais alto, para ter uma vista de 360° da cidade, podemos descobrir como foi criada a atração, saber detalhes dos prédios no entorno e ter uma prévia da vista panorâmica de dia ou de noite – tudo isso no totem de pesquisa dentro da cabine. É muito legal, porque proporcional àqueles que forem em um período do dia experimentar como seria no outro – e a paisagem muda completamente!

O embarque é aos pés da London Eye

Descendo, fomos para nossa embarcação. Esperamos mais um pouco até a barca chegar e partimos para um passeio curto – até a Tower Bridge, onde desembarcamos e encerramos o nosso tour do dia. O guia era simpático e apontava várias construções famosas, colégios, as pontes que cruzávamos – porém tudo em inglês e sem a opção de um texto e/ou áudio em outra língua. Para mim, não chegou a ser um problema – até porque estava tão encantada com o que via que mal ouvia o que ele dizia – mas isso pode ser um pouco complicado para quem não domina o idioma. Devo dizer também que estava mal acostumada com o tour panorâmico e seu sistema de explicação multilíngue já embutido no ingresso, o que facilita muito a vida. Mesmo assim, foi maravilhoso.

 

Dia 02

Nesse dia, a gente andou muito! Foi tanta coisa que eu acabei “esbarrando” que, mesmo chegando ao fim do dia exausta, me senti muito feliz. Tudo valeu a pena.

Torre de Londres

Vista da fortaleza da Tower Hill

Começamos aqui, saltando do ônibus no ponto da Tower Hill, perto perto da entrada da Torre de Londres. De residência real dos Tudor a prisão (da era medieval e até durante as duas Grande Guerras) e local de tortura que garantiram sua fama até hoje, sua função é muito mais agradável atualmente. Ponto turístico indispensável, a poucos metros de uma das mais icônicas referências de Londres, a torre é, na verdade, um complexo. Lá dentro acontecem atividades como encenações medievais, há um museu da tortura – com instrumentos usados nos prisioneiros e “demonstrações” de como funcionavam – e outro dos Fuzileiros Navais, já que o prédio ainda é a sede cerimonial do regimento. Ah, e tem fantasmas assombrando o lugar também – inclusive da Ana Bolena, que foi decapitada e enterrada ali. Mas isso é só boato, não é?

Enquanto eu tenho uma caixinha na gaveta, a rainha tem esse prédio aí pra guardar as joias dela

Mas a joia da coroa (olha o trocadilho!) é a Casa das Joias: autoexplicativo, ali estão guardadas e expostas para apreciação popular as joias mais fabulosas e importantes do acervo real. Por motivos óbvios de segurança, não se pode filmar nem fotografar lá dentro. Mas posso garantir: são salas e mais salas de colares, tiaras, brincos, brasões, toda a sorte de coisas – todas protegidas por vidro e seguranças atentos. Nunca me senti tão pobre na vida! Ao mesmo tempo, eu comentava com meus botões: “Isso aqui tudo é meu! Esse ouro todo é brasileiro, saiu tudo de Minas Gerais!”. Se não entendeu a piada, lembre que Portugal era a única a fazer comércio com a Inglaterra – e que todo o ouro que eles conseguiam arrancar da colônia (ou seja, do nosso país) ia direto para pagar a dívida com os ingleses. O ingresso é pago, mas vale a pena.

Tower Bridge

A famosa ponte basculante com duas torres é um dos símbolos mais reconhecidos da cidade. Com certeza você já a viu em algum filme ou clipe! Esse ponto turístico é também um ponto de travessia, e foi divertido cruzar o rio nessa ponte histórica. A Ponte da Torre – mais conhecida como Tower Bridge – é uma atração incrível. Antes de atravessá-la, esperei um pouco para vê-la em movimento: o trânsito para e em poucos minutos a parte central se abre para dar passagem a um navio. Essa é a rotina desde que a ponte fora construída, no século XIX.

Não estranhe os anéis olímpicos: minha visita foi bem no ano das Olimpíadas e a cidade estava enfeitada

Aqui é possível apenas atravessar a ponte para o outro lado ou passar algum tempo entendendo o funcionamento dela no Tower Bridge Exibition. Dentro das Torres, é possível caminhar e descobrir como funcionam os mecanismos que fazem a ponte se elevar e muito mais. O ingresso é pago, e talvez não seja muito indicado para os que tem medo de altura – há uma parte com chão de vidro que pode causar certa aflição. Eu adoraria ter visitado, mas a programação do dia era conhecer mais coisas em menos tempo. Portanto, parti para a outra margem do rio e comecei a caminhada em direção oposta, voltando para a curva do rio ao invés de segui-lo.

Prefeitura de Londres, HMS Belfast e Hay’s Galleria

Depois de atravessar a ponte, me vi em frente à Prefeitura da cidade – chamada de City Hall – e fiquei encantada com uma miniatura da cidade que tem em frente ao prédio, esculpida em bronze. Um prédio bem diferente e moderno, que contrasta imensamente com a sobriedade e peso histórico da Torre de Londres, do outro lado do rio. Ali também existe o The Scoop (um anfiteatro público que segue uma programação sazonal – geralmente, com espetáculos e peças sendo realizados durante o verão) que estava sendo preparado para algum evento.

Olha o prédio moderno da prefeitura!

Seguindo em frente, passei pelo HSM Belfast, um navio de guera transformado em museu, e cheguei a um lindo prédio: o Hay’s Galleria  é um antigo galpão transformado em um complexo de lojas, restaurantes, escritórios e apartamentos. A estrutura é dividida em dois prédios ligados por um longo corredor coberto, criando um ambiente superagradável e aconchegante. Ali tem uma pequena praça com vista para o Tâmisa e uma placa com azulejos mostrando como seria a vista daquele mesmo ponto em 1800. Superbacana.

Essa foi tirada do passeio de barco, mas é pra mostrar o quanto é bonito esse lugar

Southwark Cathedral

Mantendo a minha ideia de seguir a margem do rio (para não me perder), acabei fazendo um pequeno desvio logo depois de sair do Hay’s Galleria. Dando a volta no quarteirão, encontrei uma pequena pérola: a catedral de Southwark. É a igreja gótica mais antiga de Londres e um lugar pouco conhecido dos turistas (convenhamos, a concorrência ali é grande). Belíssima, é majoritariamente um templo religioso. Ou seja, dá para visitar – e não precisa pagar para conhecer – mas devem-se respeitar as horas de culto. Digo isso porque eu mesma vi um grupo chegar bastante empolgado, tirando fotos de tudo e falando muito alto (porque estavam maravilhados) até que uma funcionária da igreja interveio e pediu respeito aos fiéis, que ali não era um museu e sim um lugar para reflexão. Então, fica a dica: pode (e deve) visitar essa linda igreja, mas com respeito.

O interior da igreja é ainda mais bonito que a fachada

Bankside

Saindo da igreja, voltei a buscar um caminho que beirasse o Tâmisa. Não demorou muito e encontramos a Bankside, uma rua que passa por vários pontos muito conhecidos. O primeiro é um charmoso restaurante chamado Anchor Bankside, que tem um ar todo especial – parece uma taverna frequentada por marinheiros. Dali se tem uma boa vista de outros pontos turísticos, mas não vou me apressar.

Seguindo, encontramos o Shakespeare Globe Theatre. Nem precisa explicar muito, né? O teatro, construído no século XVI, foi usado pelo dramaturgo William Shakespeare para encenar suas maiores obras. Destruído algumas vezes e totalmente restaurado (graças a pesquisas arqueológicas) em 1996, está aberto para visitações e visitas guiadas. Há um calendário bastante diversificado. Como curiosidade, ele não tem teto – o que significa que, durante o rigoroso inverno inglês, a programação é interrompida se o tempo não colaborar.

Tate Modern, Millennium Bridge e Saint Paul’s Cathedral

Mais à frente, dois grandes ícones da cidade estão interligados por uma ponte: o museu Tate Modern e a Catedral de São Paulo (Saint Paul’s Cathedral). Ele faz parte do complexo de museus Tate, sendo esse o maior deles. Fundado em 2000 em uma antiga central elétrica da região, abriga exposições e acervos de arte moderna e contemporânea. A entrada para visitar o acervo e a maioria das exposições é totalmente gratuita (embora algumas mostras possam ter ingresso cobrado à parte). Prepare-se, pois o lugar é enorme! Confesso que não visitei o lugar porque estava exausta de andar tanto – e ainda faltava um bom pedaço até meu destino final aquele dia. Fora isso, o Tate Modern, a terceira maior atração de Londres, merece um dia reservado somente à sua apreciação.

Mais uma foto roubada do passeio de barco: só assim pra ter noção do tamanho do museu

Então, depois de uma breve pausa para descanso e beber uma água, optei por atravessar a ponte de volta para a margem direita do Tâmisa – mas não era uma ponte qualquer! A Ponte do Milênio, ou Millennium Bridge, é uma moderna ponte suspensa também inaugurada em 2000 (mas precisou ser interditada logo em seguida, por conta da instabilidade: resolvidos os problemas, foi aberta ao público em 2002 e nunca mais fechou), hoje é uma das atrações da cidade.

A caminhada pela ponte é bastante tranquila, apesar do movimento intenso

Seguindo reto pela rua após sair da ponte, chegamos até um monumento especial: um memorial aos bombeiros – Londres tem um histórico de grandes incêndios em sua história, e os bombeiros são uma instituição muito querida e respeitada na cidade. Logo em frente, chegamos à lateral de uma igreja. Bela e imponente, acaba por mostrar sua grandiosidade quando chegamos em sua entrada principal – que tem uma estátua muito bonita e régia da Rainha Vitória. E aí fica muito fácil reconhecer o monumento.

St Paul’s Cathedral é o nome mais conhecido da Catedral de São Paulo Apóstolo – e um dos mais queridos e antigos símbolos londrinos. A igreja tem a segunda maior cúpula do mundo (perdendo apenas para a da Basílica de São Pedro, no Vaticano) chegou a ser atingida por uma bala de canhão – porém, milagrosamente, resistiu quase intacta ao ataque. Palco do “casamento do século XX”, do príncipe Charles e de uma jovem plebeia chamada Diana, a igreja transpira grandiosidade. São tantas coisas para ver que o turista pode comprar um ingresso com direito a guia multimídia e acesso às galerias do domo e uma vista panorâmica de Londres. Confesso que, à essa altura, eu já não me aguentava mais (sedentarismo, a gente vê por aqui) e aproveitei alguns minutos para descansar enquanto admirava a beleza do interior da igreja sentadinha em um dos bancos.

 

O que posso dizer desse passeio? Provavelmente foi o mais produtivo da minha viagem. Aproveitei várias oportunidades: música na rua, sorvete à beira do Tâmisa, passeio de barco, vista panorâmica, e pelo menos 10 atrações prioritárias/obrigatórias em uma viagem à Londres otimizadas em 2 dias do meu período na cidade. Curti as atrações para turistas sem me preocupar em perder tempo para outras coisas, e me provei que também é possível se divertir sem ficar paranoico procurando por lugares específicos. Toda cidade tem seu charme e seus atrativos, basta ter disposição de encontrá-los. No fim, a caminhada por esse pequeno trecho do rio Tâmisa (que, tenho que admitir, tem mais atrações turísticas por metro quadrado do que muita cidade por aí) foi extenuante e gratificante – e ficou para sempre gravado na minha memória. E é disso o que as viagens são feitas, não é?

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About Geisy Almeida

Formada em Fotografia, fã de boas estórias que sejam bem contadas - não importa se em forma de livro, filme, novela ou bate-papo. Curiosa e interessada em muitos assuntos, às vezes viajo na maionese.