Tour inusitado – conhecendo um cemitério em Paris


Não é novidade que eu viajei pra Paris em 2012 (é minha única viagem internacional até agora, sorry  se eu vou fazer render). Acontece que eu não aproveitei Paris como deveria. Eu estava tão fascinada e empolgada com Londres e tudo o que vi e vivi lá que comecei meu período de férias na França com um certo ranço. De certo, eu só comecei mesmo a aproveitar minha estadia lá depois que fui visitar Versalhes (assunto para outro post? Hummm, deixa eu ver).

E foi apenas quando voltei mais disposta de lá que eu comecei a perceber a beleza da Cidade-Luz. Sim, de dia ela é muito cinza. Mas basta um bate-perna rápido e se respira história a cada quarteirão. Então, porque não visitar… Um cemitério?

Bem, não era um cemitério, mas “O” cemitério. Cimetière de Père-Lachaise, para ser mais exata. É o maior cemitério de Paris e um dos maiores (e mais famosos) do mundo. E aqui vem um pouquinho da história dele.

Aberto oficialmente em maio de 1804, recebeu seu nome em homenagem a François d’Aix de La Chaise, dito Père-La Chaise (padre La Chaise), o confessor do rei Luís XIV. São 44 hectares de terra que causaram certo bafafá quando fora assentado: os ricos não gostavam da ideia de ter um cemitério tão perto de suas casas, parando de implicar somente quando as ossadas de algumas das mais famosas personalidades foram transferidas para lá.

Falando nelas, há que se dizer que uma verdadeira constelação fora enterrada ali: escritores, cientistas, músicos, pintores, escultores, filósofos, atores e cineastas estão ali enterrados – até a rainha consorte de Napoleão Bonaparte descansa em Père-Lachaise. Muitos nomes são internacionalmente conhecidos: Allan Kardec (considerado “pai” do espiritismo), Sarah Bernhardt (atriz), George Méliès (co-inventor do cinema), Frédéric Chopin (compositor clássico), Auguste Comte (filósofo), Jim Morrisson (vocalista do The Doors), Jean de La Fontaine (escrito de fábulas infantis). Deu pra ver que a galera lá não é fraca, não é?

pere-lachaise

Como visitei sem fazer minha pesquisa prévia, acabei por não procurar muitos dos famosos ali, mas também não deixei de buscar por alguns dos mais visitados. Pelo caminho, encontrei as últimas moradas de Edith Piaf, Molière, Delacroix, Modigliani, Marcel Proust e Oscar Wilde.

Edith Piaf é, para muitos, “A” estrela francesa – e se você algum dia já ouviu alguma gravação dela é capaz de compreender porquê. Sua vida foi retratada com maestria e poesia no belíssimo filme Piaf- um hino ao amor (2007), indicado a vários prêmios Oscar e com uma performance arrebatadora de Marion Cottillard. Muitos fãs ainda a visitam e levam flores para sua diva.

Provavelmente, o túmulo mais visitado: Edith Piaf

Provavelmente, o túmulo mais visitado: Edith Piaf

Molière foi um dramaturgo francês conhecido por suas comédias onde criticava a sociedade francesa. Dizem que morreu no palco enquanto interpretava um homem doente, mas a verdade é que apenas passou mal e morrera, horas depois, em casa.  Sem receber a extrema-unção de um padre e tendo vivido como ator (profissão odiada pela igreja à época), é enterrado de noite em um cemitério para não-batizados. Com a reorganização dos cemitérios, seus restos mortais foram levados para o Père-Lachaise. Curiosamente, estes não foram colocados sob a terra, considerado solo sagrado, mas suspensos  em uma sepultura apoiada em pilastras.

Molière, escritor de teatro, tem uma sepultura singular

Molière, escritor de teatro, tem uma sepultura singular

Eugène Delacroix é considerado o mais importante pintor do romantismo francês. Muitas de suas obras decoram prédios público , como o Palácio de Luxemburgo e a biblioteca de Saint-Sulpice.

O pintor Eugene Delacroix tem uma sepultura elegante e simples.

O pintor Eugene Delacroix tem uma sepultura elegante e simples.

Amedeo Modigliani ficou conhecido por suas pinturas de figuras femininas, de rosto e pescoço alongados. Morreu aos 35 anos, extremamente pobre, vítima de meningite tuberculosa agravada por excesso de trabalho, álcool e drogas.

Lembranças e recadinhos que os fãs de Modigliani deixam para o artista

Lembranças e recadinhos que os fãs de Modigliani deixam para o artista

Marcel Proust escreveu romances, dentre os quais sua obra-prima é Em busca do tempo perdido. Sempre tivera a saúde frágil, mas sua condição piorou depois da morte dos pais. Obcecado com seu trabalho, morreu de uma bronquite mal curada.

Sepultura de Marcel Proust

Sepultura de Marcel Proust

Com um ar de tumba egípcia, o monumento dedicado a do escritor e dramaturgo irlandês Oscar Wilde é bastante curioso. Cercado por uma parede de vidro para proteger a escultura, os fãs fazem questão de homenagear seu ídolo usando batom e riscando com chaves e canetas muitos recados e declarações de amor ao escritor. Alguns fãs mais ousados conseguem até pular o vidro e deixar sua marquinha de beijo na estátua. É estranho e bonito de ver.

Túmulo protegido de Oscar Wilde

Túmulo protegido de Oscar Wilde

Então acabei por descobrir que visitar os santuários é uma atividade até bastante corriqueira. Já na entrada há um guia indicando por os principais pontos de interesse – leia-se, as tumbas de alguém famoso, ao menos para os franceses. A visita não é paga, mas se você quiser que um guia te acompanhe por medo para que vá diretamente aos principais locais, há uma taxa e um horário fixados na entrada. Je ne parle pas français, então não pedi ajuda dos guias – mas dá para se guiar bem com as instruções do mapinha.

Pois bem. Depois que entrei, comecei a me perguntar: “que que eu vim fazer aqui?” . Parei por alguns minutos e olhei ao meu redor. Em meio a toda agitação de uma cidade enorme como Paris, havia um oásis de paz.

Jardim do cemitério

Jardim do cemitério

Basta se afastar um pouco do portão principal para sentir o silêncio, e os jardins são bonitos, bem cuidados, floridos. Parece um jardim qualquer, mas tem lá uma estátua de anjo te lembrando que não é um jardim comum. E então o preconceito perde espaço para a curiosidade, e você passa a olhar cada jazigo, cada pedra, cada estátua com outros olhos. Alguns são pura obra de arte.

É interessante observar as datas, isso nos faz pensar sobre muitas coisas. Andando pelas ruas ali dentro é fácil perceber que há segregação social mesmo em um cemitério, dá pra saber direitinho quem tem dinheiro e quem não tem. Outra coisa interessante é perceber como os boatos e superstições tinham um amplo espaço para crescer: é fácil imaginar que locais como aquele reforçassem a criação de lendas sobrenaturais como vampiros e lobisomens. Aquele local à noite, sem a agitação moderna, as construções em estilo gótico e os anjos chorões reforçando o medo ao sobrenatural, uma população assombrada pela guerra e a peste… Um prato cheio para a imaginação voar.

As ruas dentro do cemitério

As ruas dentro do cemitério

 

As cosplayers: tá meio tremida porque eu estava sendo pux longe delas

As cosplayers

Ah, e às vezes dá pra encontrar algumas figuras por lá. Por sorte (minha, mas minha mãe não curtiu muito), encontrei três cosplayers lá dentro. Com roupas completamente negras que remetiam à era vitoriana, caminhavam alegremente pelas ruas. As vi à distância (não pude me aproximar, se é que vocês entendem), mas acho que elas topariam tirar algumas fotos em troca de alguns euros. E não, não eram fantasmas. O guardinha as mandou se encaminharem para a saída pois já estava quase na hora de fechar.

“Ah meo deos, você foi num cemitério à noite?!” . Teoricamente, sim. Mas o lugar fechou por volta das 18h – e lá não escurece antes das 22h durante o verão. Então, eu estava segura. Grata pela preocupação.

Se você ainda se questiona do real interesse que pode haver em um cemitério, eu considero o mesmo que se tem em visitar uma catedral antiga ou um templo exótico. Não importa a religião, a crença ou superstição, mas a história e a cultura que você vai encontrar lá. A verdade era que eu estava ali por perto, sem muita coisa que fazer (lembrem-se que eu prefiro um estilo low speed pra viajar)… Ora, por que não? Não se surpreenda se você começar a gostar de arquitetura e escultura tumular, não tem nada de errado nisso (fãs de Doctor Who podem me questionar agora).

Mas a pergunta que não quer calar é: eu faria um novo programa assim? Sim, com certeza. Na volta da viagem, lembro de ter pesquisado vagamente por “tour em cemitérios” – não me aprofundei porque, né?, não faço ideia de quando vou poder voltar lá para outros tours do gênero – mas existem até agências especializadas no assunto. Muitos fotógrafos, inclusive, gostam de visitar esses locais em grupo e experimentar técnicas e composição. Se quiser ver do que eu estou falando, existem várias contas no Instagram dedicadas ao assunto.

pere-lachaise

Então, se sua próxima viagem pela Europa incluir Paris, dê uma chance ao Père-Lachaise – depois tem alguns cafés ali perto para aproveitar um fim de tarde à la parisienne. E, se for mais aventureiro, inclua em seu roteiro de “melhores castelos europeus”, “museus imperdíveis” e “praias mais badaladas” algo de “cemitérios mais bonitos da Europa”. Depois me contem da sua experiência.

Se gostou das imagens não deixe de conferir a galeria completa de fotos do Père-Lachaise!

Leia também


About Geisy Almeida

Formada em Fotografia, fã de boas estórias que sejam bem contadas - não importa se em forma de livro, filme, novela ou bate-papo. Curiosa e interessada em muitos assuntos, às vezes viajo na maionese.