Criando memórias: fotografia de viagem não é só pra exibir


Que atire a primeira pedra quem nunca voltou pra casa com umas mil fotos de um passeio de fim de semana e publicou, sei lá, umas vinte, no máximo! Imprimir, então… Pois é. Daí a gente se pergunta: pra quê tanta foto? Ok, posso estar reclamando à toa. Foto nem pesa na mala (apesar de lotar a memória do cartão e do celular), e quem quer postar foto sempre busca a mais bonita – o que requer ao menos uma segunda tentativa para comparar. A questão é: porquê não conseguimos apagar aquelas fotos que a gente não vai postar nunca?

Enquanto esperava para atravessar, fui ver a banca do camelô. Olha o que eu achei no reflexo…

Várias respostas pra uma pergunta complexa que a maioria dos viajantes nunca se faz. Não há nada de mal em voltar com milhares de fotos e nunca mais vê-las; mas me peguei pensando na motivação disso e cheguei a uma conclusão até bastante óbvia: nós queremos manter a memória daquela viagem. Não só das paisagens bonitas, mas dos sorrisos, da comida, dos perrengues. Nem deles a gente quer esquecer! Se desse para fotografar o cheiro e o clima, então… (é só o que falta para as câmeras hoje em dia, diga-se).

Se a gente voltar um pouquinho no tempo, vemos que lá no início a pintura começou como uma forma de retratar a realidade e eternizá-la (até melhorá-la, convenhamos), mas esse papel mudou de mãos com a chegada da fotografia. O que a câmera faz senão registrar o que está bem diante de sua lente? Eu acho que confiamos na máquina como confiaríamos em nosso próprio corpo: os olhos são a lente, o cartão de memória é nosso cérebro – e tudo o que vemos fica armazenado ali. Fotografia, nesse caso, vira nossa memória. Então acho que é por isso que tiramos tantas fotos quando viajamos, como se fosse uma prova de que nós realmente estivemos lá e vivemos aquilo. E daí vale foto de tudo!

Perder a hora do café do hotel pode render esses achados na rua

Desde o café da manhã a um dia de chuva, da quantidade de casacos usados num dia particularmente frio a um tampo de bueiro diferente no meio da rua, do pôr-do-sol bonito às águas cristalinas que nunca tem perto da nossa casa. Daí você posta suas fotos mais bonitas para que os amigos vejam o quanto você se divertiu – mas são essas fotos que a gente não mostra pra quase ninguém que formam a nossa história do passeio. A foto em que sua cara está horrível por causa do vento ou por estar desanimada por conta do cansaço, a bolsa de gelo no pé inchado depois que caiu da escada, o casaco novo que comprou porque perdeu no metrô o que levou de casa… As imagens contam histórias. Pode ser que suas fotos nunca vão parar numa exposição, mas o importante são as lembranças que carregam – e, com o tempo, percebemos que a forma como fotografamos também se define.

Revendo minhas fotos, percebo nitidamente que eu me prendo aos detalhes e só depois eu reparo no todo – a grande maioria dos meus planos são pedaços de coisas ou planos bem fechados, uma forma bem específica de eu demonstrar exatamente o quê me fascinou. Quase não tenho selfies, embora vez ou outra peça para alguém me fotografar no lugar (notem que tenho me esforçado mais, graças ao blog). Tenho várias fotos em séries quase obsessivas, como placas de rua, nuvens ou portas – em cada viagem eu trago uma coleção diferente e dificilmente repito na próxima. Ah, sim! Menos quando são estátuas: me chame de louca, mas adoro ficar rondando uma estátua até encontrar o ângulo certo em que ela interaja com alguma outra coisa. Cada louco com sua mania, não é?

Nem dá pra identificar onde foi, mas eu lembro muito bem de ter rido muito com esse cachorrinho caubói andando solto por Petrópolis/RJ – e é isso o que importa

Esse texto vem apenas para refrescar a ideia de que foto de viagem não precisa ser tecnicamente bonita e perfeita: o importante é olhar para foto e lembrar da experiência, de preferência com um sorriso estampado no rosto. Não se sinta frustrado por voltar para casa “sem uma foto que preste”. Cada imagem traz consigo uma história, deve significar algo para você. Na pequena galeria abaixo, eu reuni as minhas histórias favoritas são 12 fotos, 12 histórias diferentes. Espero que gostem, e que se empolguem em fazer o mesmo – até porque não há motivação melhor para planejar a próxima viagem do que reviver os melhores momentos das aventuras anteriores.

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About Geisy Almeida

Formada em Fotografia, fã de boas estórias que sejam bem contadas - não importa se em forma de livro, filme, novela ou bate-papo. Curiosa e interessada em muitos assuntos, às vezes viajo na maionese.