Crítica: A Favorita


Não há ninguém inocente em A Favorita, longa dirigido por Yorgos Lanthimos que atingiu a marca de dez indicações ao Oscar 2019, ao lado de Roma. Se há uma palavra que move o filme é interesse, apesar de desejo, ambição, inveja e frustração também povoarem o universo da história. É possível notar, em alguns momentos, afetos genuínos, mas todas as relações são dominadas por motivações nada ingênuas, sejam elas implícitas ou escancaradas. Sempre, claro, com a polidez que a corte da corte britânica do século 18. O tempero nesse caso é o humor, que tem uma marca forte ao longo da projeção e o clima tenso, que deixa o espectador interessado até o fim.

No começo, a chegada de Abigail (Emma Stone) passa despercebida. Mas não demora muito para a duquesa de Marlborough, lady Sarah (Rachel Weiz), perceber que sua rotina não será a mesma. Ela abriga a jovem, que passa a trabalhar como empregada no palácio, mas tem outros planos em mente. Sempre atenta, ela observa as dinâmicas entre os nobres, em especial a de sua patroa com a rainha Anne (Olivia Colman), e ganha acesso a informações importantes. Logo chama a atenção do líder da oposição, Harvey (Nicholas Hoult), que se aproxima com a intenção de transformá-la em uma espiã. O que ela faz? Jogo duplo, ganhando a confiança de Sarah e garantindo uma proveitosa rede de contatos.

Abigail é fria e esperta, características que servem bem à sua ganância. A criada, que um dia foi uma dama, quer reconquistar a qualquer custo seu lugar de respeito na sociedade, de preferência com algum conforto. Como ela diz explicitamente em determinada passagem, ela está do lado dela. As questões políticas, que movem Sarah, não lhe dizem respeito. Arrogante, a duquesa não percebe que tem uma adversária tão próxima. Suas preocupações se resumem a entreter e agradar – intimamente, inclusive – a soberana, de modo a torná-la maleável a suas vontades. Inclusive a ida do marido, o lord Marlborough (Mark Gatiss), à guerra é tratada por ela como um “sacrifício” que precisa ser feito, em nome de um benefício maior.

A alta voltagem entre Abigail e Sarah é o ponto alto do filme – as descobertas de cada uma sobre a oponente, suas pequenas vitórias e derrotas, suas artimanhas e ameaças veladas criam momentos deliciosos. As atrizes estão em plena forma, assim como Olivia, capaz de comover, divertir e provocar repulsa em intervalos constantes. Sua rainha é dificílima, uma personagem que poderia cair na caricatura ou parecer uma vítima neste fogo cruzado de intrigas, mas a fragilidade de Anne também é capaz de revelar traços obscuros e cruéis de sua personalidade. Se muitas vezes ela é manipulada, inclusive por quem parece nutrir sentimentos reais a ela, como Sarah, por outras a monarca parece ter um certo prazer em ocupar o centro das atenções, mesmo quando seus interlocutores mal conseguem disfarçar sua pena.

A edição do filme é primorosa e consegue absorver e reforçar todas as emoções que estão em jogo. Uma simples conversa fica bem mais angustiante quando o som de um tiro (da cena seguinte) parece invadir o quarto real. Ou quando longos planos de rostos, em detalhe, nos dizem que conquistas e humilhações podem conviver lado a lado dentro de cada personagem. Não há ninguém inocente em A Favorita, e todos os envolvidos sabem disso.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas