Crítica: Assassinato no Expresso do Oriente


Hercule Poirot (Kenneth Branagh) bem que tenta, mas não tem descanso: mal soluciona um mistério e outro caso já cai em seus ombros. Não é à toa que protagonizou nada menos que 39 livros de Agatha Christie e volta-e-meia tem suas histórias adaptadas para outros veículos. Mesmo assim, já fazia algum tempo que o excêntrico detetive não dava as caras na tela grande.

Requisitado em Londres com urgência, Poirot consegue com dificuldade uma vaga no Expresso do Oriente, estranhamente lotado para a época do ano. Como já diz o título, alguém é assassinado no trem, que fica preso em uma nevasca que encurrala os suspeitos com o detetive mais famoso do mundo. Hercule Poirot tem apenas algumas horas para desvendar o crime antes de chegar à próxima estação.

Após uma demonstração curta, porém eficiente, das idiossincrasias e modus operandi de seu protagonista, Assassinato no Expresso do Oriente apresenta de forma dinâmica seus muitos personagens. Gasta-se algum tempo apresentando o ambiente da locomotiva e seus passageiros antes de seguir com a trama propriamente dita, dando ao expectador um gostinho dos hábitos observadores de Poirot antes mesmo de ele, de fato, começar a analisar as circunstâncias.

Crime realizado, é hora de analisar as provas e conversar com os suspeitos. É nesse ponto que muitos podem achar o longa arrastado, embora a mudança de ritmo seja coerente com a obra literária que o inspirou. A lentidão nasce da repetição de uma situação inevitável: Poirot precisa interrogar passageiros e funcionários do vagão. O longa até tenta criar uma dinâmica mais leve, mudando a locação dos interrogatórios, chegando a sair da locomotiva. A certa altura, a edição tenta agilizar o ritmo alternando os depoimentos, exigindo mais atenção do expectador para não se perder nos detalhes.

Mas esta é a única grande falha do filme, e não deve afetar aqueles que já conhecem a história. Infelizmente, também serão essas pessoas que não vão se surpreender com o desfecho bem construído graças a esse segundo ato mais detalhado. Os já iniciados também vão se surpreender com uma ou outra cena de ação, claramente incluídas para dar mais dinamismo a uma obra composta apenas de longas exposições criadas de forma criativa para explorar os poucos ambientes que o veículo oferece.

Aliás, criativos também são os ângulos e movimentos de câmeras escolhidos por Branagh, que também é diretor do filme. Seja para encontrar o melhor ângulo para mostrar a cena do crime, ou para dar ao expectador a sensação de ser mais um passageiro (mesmo que clandestino) no Expresso Oriente, o recurso já se tornou um traço característico do diretor – que funciona muito bem no ambiente confinado em que a história se passa.

De volta aos suspeitos, o elenco de peso é um dos atrativos para os não-aficionados pelas obras de Agatha Christie. Além de Branagh que conduz a trama muito bem, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Gerhard Hardman, Judi Dench, Johnny Depp, Josh Gad, Derek Jacobi, Michelle Pfeiffer e Daisy Ridley são os nomes mais conhecidos do elenco afinado. Sem grandes atuações, todos executam de forma eficiente o trabalho no pouco tempo de tela que tem, em meio a tantos suspeitos. Os destaques ficam para Josh Gad, em um personagem de tom bastante distinto daqueles a que estamos acostumados a ver um ator com suas características; e Daisy Ridley, intérprete de Rey em Star Wars VII – O despertar da Força, mostrando que não pretende ficar marcada apenas por um personagem. Michelle Pfeiffer também merece nota por provar que acerta cada vez mais – tanto na atuação, quanto na escolha de seus trabalhos.

Um design de produção impecável completa o pacote. Mesmo sabendo que houve um crime nele, e que existe a possibilidade de ficar atolado na neve, é impossível não querer embarcar no luxuoso trem. Concebido com riqueza de detalhes em seu interior, dos figurinos aos utensílios de cozinha, e o exterior criado com computação gráfica eficiente sob os trilhos (incluindo os cenários por qual ele passa), o resultado final é de encher os olhos. Já o bigode de Hercule Poirot dispensa comentários.

O longa é visualmente deslumbrante e tecnicamente bem feito. O roteiro tem, sim, uma mudança de ritmo herdada de seu material original que pode desagradar a alguns – mas, no geral, não compromete a excelente trama de Agatha Christie, nem diminui o mérito das boas atuações. Assassinato no Expresso do Oriente é uma excelente porta de entrada para uma nova franquia já confirmada. Morte no Nilo deve ser a próxima aventura do detetive excêntrico e nada modesto. Que venham mais mistérios!

Texto originalmente publicado no blog Ah! E por falar nisso…

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About Fabiane Bastos

Jornalista especializada em cultura, viciada em filmes, séries e livros não necessariamente nesta ordem. Adoraria poder visitar os mundos que só conhecemos pelas páginas e telas, ou chegar o mais próximo disso possível!