Crítica: Capitã Marvel


Brie Larson é a protagonista de "Capitã Marvel"

Brie Larson é a protagonista de Capitã Marvel

É curioso como estamos tão inundados de narrativas de super-heróis no cinema e na TV (sem contar, obviamente as HQs) que às vezes esquecemos de um princípio básico dessas histórias: seus protagonistas precisam nos inspirar. E, para isso, os filmes precisam nos arrebatar numa jornada emocional potente ou numa aventura realmente empolgante. Com todas as suas qualidades, Capitã Marvel não chega a nenhum dos dois lugares. É bem feito, a história é bem conduzida e seu desfecho tem um casamento perfeito com o já estabelecido universo cinematográfico do estúdio. Mas ser uma peça que se encaixe no quebra-cabeças é pouco para um filme que tem uma heroína tão poderosa, mas não empolga.

O longa dirigido por Anna Boden e Ryan Fleck aposta numa trama de mistério para revelar a origem de Vers (Brie Larson), apresentada como aprendiz do comandante kree Yon-Rogg (Jude Law), que a ensina a aperfeiçoar seus conhecimentos de luta, conter suas emoções e controlar seus poderes. Ela tem flashes de memórias que não entende muito bem e que só serão explicados quando ela fizer uma longa viagem até esse estranho planeta chamado Terra, na década de 90. Seu objetivo, no entanto, é outro: capturar os skrulls, criaturas metamorfas que logo estabelecem seu esconderijo entre os humanos. Seu improvável parceiro nessa tarefa acaba sendo Nick Fury (Samuel L. Jackson), que vai investigar uma ocorrência policial e se encontra numa perseguição alienígena.

A dupla funciona muito bem, graças à performance inspirada de Jackson e ao acertado tom cômico do personagem. Ele faz um ótimo equilíbrio com Vers, que tem um perfil mais sério, embora bem-humorado, e carrega algumas perguntas sem respostas do passado que viraram feridas ao longo do tempo. Seu percurso emocional se beneficia de ter uma boa atriz como Larson no papel, que consegue transmitir as dúvidas e receios da personagem com sutilezas, num olhar.

E o filme cresce muito quando entra em cena sua melhor amiga, Maria Rambeau (Lashana Lynch), e a filha dela, Monica (Akira Akbar). Ainda assim, o roteiro escrito por Boden, Fleck e Geneva Robertson-Dworet parece sempre se segurar para não aprofundar o drama. A partir daí, o filme apresenta algumas reviravoltas e segue o restante da cartilha do gênero, de forma competente.  Valem a menção a aparição bônus do “novato” agente Coulson (Clark Gregg) e a presença do antagonista Talos (Ben Mendelsohn).

O momento mais poderoso, no entanto, é mesmo quando Vers, agora ciente de sua identidade e de seu nome verdadeiro, Carol Denvers, realmente se transforma na Capitã Marvel e mostra todo seu potencial. Vê-la em ação é o ponto alto do filme, e a sequência levanta algumas perguntas. Por que só vamos ver o melhor dela em Vingadores: Ultimato? E por que Fury esperou metade dos heróis (e das pessoas) do planeta serem destruídos antes de usar seu pager? Perdemos todos.

Brincadeiras à parte, é em sua reta final que o filme mostra o quanto poderia ter ido mais longe. Sem pressionar tanto em mistérios e revelações e twists, apostando mais na emoção e na catarse de uma figura tão intensa finalmente se mostrar por inteira. E, por mais que Larson seja competente, não transborda carisma como uma personagem como essa exige. Gal Gadot, por exemplo, tem menos recursos dramáticos que ela, mas encarna uma heroína desde o princípio em Mulher-Maravilha. E se formos falar de personagens menos populares e, portanto, não tão cristalizados no inconsciente coletivo, temos ótimos exemplos bem-sucedidos com Homem-Formiga (Paul Rudd) e Aquaman (Jason Momoa).

Acreditar no herói é o primeiro passo, seja ele um adolescente tímido do Queens ou no playboy cínico de Gotham. Voando pelo espaço, a Capitã Marvel impressiona em seu breve tempo de tela, mas Carol Danvers decepciona em um filme que é quase totalmente dedicado a ela. Seus bons coadjuvantes, no entanto, ajudam a manter a projeção divertida, assim como as ainda válidas piadas com os já distantes anos 90. E a possibilidade de ver a personagem nas demais sequências desse universo cinematográfico parece promissora.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas