Crítica – Homem-Aranha: De Volta ao Lar


Assim como os espectadores, o Peter Parker de Tom Holland já tinha ciência de que “com grandes poderes, vem grandes responsabilidades” – ele fala basicamente isso, com outras palavras, em seu primeiro encontro com Tony Stark, ainda em Capitão América: Guerra Civil. O que falta para o adolescente é realmente compreender o sentido de responsabilidade, o que, convenhamos, é tarefa mais que complicada quando se tem apenas 15 anos.

A história de Homem-Aranha: De Volta ao Lar, no entanto, começa oito anos antes, logo depois da batalha dos Vingadores em Nova York (então esse filme se passa em 2020?), quando Adrian Toomes (Michael Keaton, excelente) encontra a motivação e a oportunidade que o farão se tornar o vilão Abutre. Anos mais tarde, um Peter recém-saído do confronto no aeroporto de Berlim em Guerra Civil, está pronto para mais uma missão e começa a ficar entediado com os limites impostos por seu “tutor de heroísmo”. Tony Stark (Robert Downey Jr., com o carisma de costume) insiste que o Homem-Aranha continue como o amigão da vizinhança, cuidando de problemas pequenos. Somem-se aí não apenas os dilemas normais de um adolescente como os habituais de alguém tentando entender seus novos poderes.

Este novo filme do teioso não reconta (ainda bem!) a história de como Parker se tornou Homem-Aranha, mas não deixa de ser um filme de origem deste herói em formação. Peter ainda não conhece completamente seus limites, ainda não está pronto para lidar com as consequências de seus “atos heroicos” e quer desesperadamente provar seu valor. É claro que muitos erros e equívocos estão em seu caminho.

Happy, Stark e Parker = supervisor, mentor e trainee…

É apenas nesse “controle de danos”, na supervisão e nas lições que o Homem de Ferro se faz presente – contrariando aqueles que apostavam que o milionário roubaria o filme para si. O protagonista é o Homem-Aranha, é ele quem conduz a história. Stark ou mesmo seu babá assistente Happy Hogan (Jon Favreau, ganhando um pouco mais de espaço) são apenas mais duas pessoas na vida do adolescente. E por falar nessa vida, além de ficar soltando teia por aí, Peter ainda precisa respeitar sua tia May (Marisa Tomei) e frequentar a escola. É nessa vida cotidiana que está a alma do longa.

Cheio de inspirações assumidas em filmes do John Hughes, a trama dedica tempo ao seu dia a dia de adolescente, humanizando ainda mais o personagem. Há uma identificação com o jovem, pois todos já passamos por situações parecidas na escola. Tudo isso com diálogos rápidos inteligentes e com muito, muito bom humor.

Muita vibe de John Hughes nessa foto!

Essa escolha pelo humor não funcionaria se seus companheiros de ensino médio não fossem selecionados a dedo, e sem medo de abandonar o cânone dos quadrinhos para criar um corpo estudantil mais realista. O elenco de jovens talentos está entrosado e afinado com seus personagens – afinal, estão realmente no final da adolescência, essa é sua realidade. Fãs dedicados podem se incomodar com a nova roupagem dada à Flash Thompson (Tony Revolory), mas ninguém deve reclamar da excelente química de Holland com seu melhor amigo nerd Ned (Jacob Batalon). Também é uma boa prestar atenção às tiradas pontuais da independente Michelle (Zendaya), que aparentemente é um modelo feminino forte em construção.

Keaton é outro ponto alto do longa, ao entregar um vilão que foge da megalomania habitual dos malfeitores dos quadrinhos. Sim, ele tem asas – mas suas motivações são bastante realistas, levando muito espectador a se questionar se agiria da mesma maneira. Nada de dominar o mundo, matar todos os mocinhos, atuações expansivas e risadas maléficas – um sussurro ou uma conversa calma podem ser muito mais assustadores. Nem mesmo de Abutre ele é chamado.

Keaton, um vilão da Marvel “diferentão”!

Curiosamente, as cenas de ação são o ponto mais fraco do filme. Não que sejam ruins, elas apenas cumprem sua função. Não há nenhuma cena memorável como a luta com Dr. Octopus no trem do segundo filme de Tobey Maguire, por exemplo. O mesmo vale para a trilha sonora genérica, que só se destaca quando traz de volta o tema da série de TV repaginado junto com o logo da Marvel aparece no início do filme.

Já a versão de Nova York é a mais criativa já vista nos filmes do Cabeça de Teia. Praticamente confinado no Queens, nada de balançar em arranha-céus. O amigão da vizinhança mostra uma visão muito peculiar do bairro onde mora, mais uma vez humanizando o personagem. Não que Holland precise de ajuda para isso. Cheio de carisma, e tão empolgado com o papel quando Peter com seus poderes, ele é o Homem-Aranha. Uma versão leve, realmente jovem, divertida e completamente diferente de tudo que vimos no cinema sobre o personagem até agora.

Herói em formação

Bem inserido no universo cinematográfico da Marvel – repare, os pontos de partida tanto do vilão quando do protagonista são grandes eventos dos Vingadores -, mas com uma voz própria, Homem-Aranha: De Volta ao Lar acerta em deixar a megalomania dos filmes de super-heróis de lado para contar a história de Peter. Um adolescente comum, inteligente, bem-humorado, cheio de boas intenções, e que (como todos) comete seus deslizes, mas que nesse caminho está se tornando o herói que precisávamos.

P.S.: Há uma cena durante os créditos e outra no fim, nada de sair correndo da sala!

Texto originalmente publicado no blog Ah! E por falar nisso…

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About Fabiane Bastos

Jornalista especializada em cultura, viciada em filmes, séries e livros não necessariamente nesta ordem. Adoraria poder visitar os mundos que só conhecemos pelas páginas e telas, ou chegar o mais próximo disso possível!