Crítica: Jogador Nº1


Aqui vai um aviso, você vai precisar assistir este filme mais de uma vez no cinema. O motivo? Tentar encontrar todas os easter eggs escondidos, enquanto o protagonista persegue o seu próprio “ovo de páscoa” Baseado no livro homônimo de Ernest Cline, Jogador N°1 é uma aventura cheia de referências e nostalgia.Jogador Nº1, Ready Player One

Em um futuro não muito distante o mundo está super-povoado, mega poluído, e as pessoas escapam deste cenário horrível imergindo no OASIS, universo em realidade virtual onde se pode fazer de tudo. Mas este paraíso virtual está ameaçado desde a morte de seu criador, James Halliday (Mark Rylance, O Bom Gigante Amigo), que elegeu como herdeiro o primeiro que encontrasse um easter egg escondido em seu mundo. Wade Watts (Tye Sheridan, o Ciclope de X-Men: Apocalipse) é um dos caça-ovos que persiste na busca pelo prêmio, de preferência antes, que os funcionários da IOI, que pretende lucrar o máximo com a plataforma e ficar com a fortuna trilionária.

Steven Spielberg está de volta aos blockbusters de aventura que o tornaram um dos diretores favoritos de todos que cresceram nas décadas de 1980 e 90, nesta produção que é uma ode à cultura pop da penúltima década do século passado. Halliday é obcecado por esta época, seus games, filmes, séries de TV e música. Por isso, sua caçada em estilo de video-game, é formada por pistas e referências. deste período. É aqui que nerds e nostálgicos vão se deliciar caçando seus favoritos, que vão de kaijus japoneses à referências do próprio diretor, em uma mistura bem acertada e variada.

Jogador Nº1,OASIS, Parzival, Art3mis

OASIS, onde você pode ser o que quiser

Entretanto, aqueles que leram o livro, vão descobrir novas pistas e referências. As mudanças provavelmente realizadas para se adequar às autorizações de direitos autorais, acabam por adicionar um fator surpresa para quem já conhecia a jornada, com novos puzzles e enigmas. E como os anos de 1980 são um poço de referências, não faltam alternativas, para criar vários quests diferentes.

Não é só de referências que se faz um filme. Wade (Parzival, dentro da OASIS) é o “cara comum” – só que não – que nos guia por essa aventura. Além de desvendar os enigmas e superar os desafios na busca pelo tesouro, ele ainda precisa lidar com os perigos de estar chegando perto da resposta. Aqui o antagonismo é personificado pela Innovative Online Industries (IOI), e seu exército de especialistas comandados por Sorrento (Ben Mendelsohn, Rogue One), tipico engravatado preocupado apenas com o próprio lucro.

Jogador Nº1, Tye Sheridan, Olivia Cooke, Win Morisaki, Philip Zhao

Tye Sheridan, Olivia Cooke, Win Morisaki e Philip Zhao

Também na corrida, Art3mis (Olivia Cooke de Bates Motel), caçadora de IOI e interesse amoroso do protagonista. Seu melhor amigo Aech, Daito e Sho (Lena Waithe, Win Morisaki e Philip Zhao), completam o time dos melhores jogadores do ranking, cujas identidades reais são uma surpresa a parte, que o roteiro podia ter escondido por mais tempo. O grupo, também ligeiramente diferente de sua versão nas páginas, é a personificação da diversidade, para garantir que todos se identifiquem com os mocinhos.

Aliás, apenar de jogadores individuais, logo os caça-ovos descobrem que terão de se unir para superar os vilões. Formando a clássica equipe de aventuras que tanto acompanhamos nas sessões da tarde. Também um eco, das aventuras dos anos 80, é a simplicidade da jornada que chega a ser previsível. Mas tudo bem, pois a graça desta aventura não está no que acontece, como acontece.

O que pode ser consideradas pequenas falhas para alguns, é o excesso de explicações altamente expositiva, especialmente em seus primeiros minutos, quando o roteiro insiste em descrever o que estamos vendo. Ou a necessidade de explicar algumas referências mais obscuras. Deslizes pequenos, que não temos dificuldade em ignorar diante das qualidades da produção.Jogador Nº1, OASIS, Wade

A mistura entre cenas em computação gráfica e live-action também é um acerto. Mais da metade da aventura se passa dentro do mundo virtual, por isso a produção corria o risco de soar artificial demais, pelo excesso de cenas em computação gráfica, mas o roteiro encontra soluções interessantes, para dar uma pausa nas cenas virtuais, e consegue até misturar os dois mundos com eficiência. Vale lembrar que assisti a produção em IMAX e em 3D (e sim,vale o ingresso mais caro), e não posso afirmar que os efeitos terão a mesma eficiência em exibições tradicionais.

Já as batalhas devem se beneficiar um pouco nas sessões em 2D. Apesar de bem montadas, as sequencias não escapam de gerar um leve desconforto pela agilidade em alguns instantes. Nada que atrapalhe a compreensão, ou diversão (não é Transformers, ufa). De fato, é surpreendente perceber o quão bem funcionam essas sequencias, com uma quantidade impressionante de personagens. A batalhas, são frenéticas, dinâmicas, nos deixam apreensivos pelos personagens, tem muitos easter eggs, e não deixa o espectador perdido em momento algum.

O filme ainda conta com Simon Pegg em pontas de luxo. E trilha sonora de Alan Silvestre outro ícone da cultura pop. Além de contar com sucessos dos anos 70 e 80.

Jogador Nº1, Gigante de Ferro, Parzival, Sho, Ready Player One

Gigante de Ferro, Parzival e Sho

Há espaço ainda para uma leve crítica a nossa obsessão com o mundo virtual, em detrimento do real. Falsas identidades assumidas na internet, o consumismo desenfreado, obsessões, o endeusamento de celebridades, entre outras questões são apenas sugeridas na produção, quem quiser se aprofundar um pouco mais, vale ler o livro.

Feito para, e por, aficionados com a cultura pop, em especial da década de 1980, mas acessível para quem não tem a mesma bagagem. Jogador Nº1 traz para as telas de forma eficiente o vasto universo do OASIS, onde você pode ser quem quiser, e juntar todos os seus favoritos em uma mesma batalha. Um filme sobre a caça à um easter egg, repleto de outros easter eggs, que você vai precisar , e querer, ver e rever para encontrar todos.

Texto originalmente publicado no blog Ah! E por falar nisso…

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About Fabiane Bastos

Jornalista especializada em cultura, viciada em filmes, séries e livros não necessariamente nesta ordem. Adoraria poder visitar os mundos que só conhecemos pelas páginas e telas, ou chegar o mais próximo disso possível!