Crítica: Justiceiro (Marvel/Netflix)


Se te contarem que Justiceiro (Punisher, 2017) não é um produto Marvel/Disney, você até acredita. A nova série, fruto da parceria das duas gigantes do entretenimento, traz ao espectador um produto completamente diferente do já apresentado – e isso foi um baita elogio. A trama densa, recheada de um drama pesado sobre a triste história do personagem Frank Castle, e o clima de tensão a todo instante trazem um ar de série policial das boas. São raros os momentos em que Frank veste seu uniforme, o que o distancia dos super-heróis o grupo – e reafirma a condição dele como um anti-herói: deslocado da sociedade, sem poderes, apenas com uma aparente insaciável sede de vingança e disposto a fazer justiça com as próprias mãos. Ao que parece, bem similar ao espírito do original dos quadrinhos.

 

Netflix e Marvel em um parágrafo

Quando Demolidor (Darevedil, 2015) estreou, muita gente se surpreendeu com a trama e a forma como o personagem foi tratado – completamente diferente do malfadado longa de 2003. O mesmo cuidado foi visto em Jessica Jones (2015), onde uma super-heroína pouco conhecida foi trazida com brilhantismo para o grande público. Daí a coisa desandou um pouco. A série do Luke Cage (2016) chegou logo depois do personagem interpretado por Mike Colter aparecer em Jessica Jones e prometia ser bem legal, mas o ritmo da série (que parece saída direto dos anos 1970) não agradou ao público. Veio então Punho de Ferro (Iron Fist, 2017) com suas lutas mal coreografadas e um personagem pouco carismático e Defensores (The Defenders, 2017), que mesmo não sendo tão ruim, pouco fez proveito do poderoso quarteto: serviu apenas para reunir os heróis que todos esperavam ver juntos – e deixar alguns fios soltos para serem acertados nas séries individuais dos seus herois. Acontece, porém, que um deles ficou de fora: em uma participação avassaladora na segunda temporada de Demolidor, era hora de Frank Castle ter sua história contada em uma série solo.

 

Temporada 1

O que sabíamos de Frank Castle era que sua família tinha sido assassinada em uma emboscada e que ele não pararia o banho de sangue até que todos os envolvidos estivessem mortos. Essa atitude violenta é o que impede que as pessoas o considerem um super-herói – apesar do nome “Justiceiro”, não há nada de justiça nisso que ele faz. E é bem isso o que a série quis explorar nessa primeira temporada: o que leva um homem a agir assim e quais consequências isso tem (na vida dele e nos demais à sua volta)?

Castle (Bernthal) e Russo (Barnes): amigos e ex-fuzileiros que tiveram rumos bem diferentes na vida

Esse ponto central para o desenrolar da trama é uma pérola. Com personagens exemplificando que qualquer ser humano é capaz de se revoltar e se redimir, tudo dependendo das circunstâncias, o argumento reafirma que violência só gera violência. De forma envolvente e crescente, o roteiro desvenda o passado de Castle (Jon Bernthal, excelente) e nos mostra como ele ainda não havia chegado ao fim mesmo que ele estivesse tentando recomeçar.

Depois de assumir a identidade de Peter Castiglione, Frank agora trabalha como pedreiro, ganhando seu suado dinheiro e extravasando sua raiva ao mesmo tempo, Castle seguia sua vida do jeito que podia. Seu amigo Curtis Hoyle (Jason R. Moore), também veterano de guerra, o ajuda em reuniões de grupo para ex-veteranos. Algumas vozes ali ainda ecoam guerra, mas a maioria – assim como Frank – buscam a paz. Atormentado pelas lembranças de sua família e pela culpa, ele tenta evitar que alguns jovens se envolvam em problemas sem que ele próprio se envolva demais nos casos. Mas seu senso (deturpado, diga-se) de justiça o obriga a voltar para a luta. E é depois de um contato telefônico que ele mergulha de cabeça no passado, afim de exterminar seus pesadelos de uma vez por todas.

David (Moss-Bacharach) precisa da ajuda de Frank para voltar para sua família

Micro (Ebon Moss-Bachrach, excelente) é um hacker que descobriu a verdade sobre Frank Castle e, agora que ele está vivo, precisa da ajuda dele para desvendar um crime de guerra que lhe custou a própria identidade. Micro é, na verdade, David Lieberman, um investigador da CIA que descobriu mais do que devia. Há um ano vive escondido da polícia, dado como morto, mas sempre buscando informações que pudessem desvendar o mistério de uma vez por todas e o levassem de volta para casa. O vídeo com soldados americanos torturando e matando um afegão em uma operação suspeita é a chave para sua liberdade. Essa mesma gravação foi a ruína de Dinah Madani (Amber Rose Revah): sabendo que se tratava do assassinato de seu parceiro infiltrado, ela quis investigar mais a fundo – porém foi impedida. Determinada a não descansar enquanto não descobrisse porquê soldados americanos traíram seu próprio pessoal, ela vai mexer em um palheiro prestes a pegar fogo.

Stein (Nathanson) e Madani (Redevah): uma dupla desacreditada em busca de justiça

Esse são os três principais fios condutores da série: Castle descobrindo coisas cada vez mais assustadoras de seu passado; Dinah cutucando onça com vara curta e David fazendo o impossível para voltar para sua família. Mas série é bem mais que isso. Usando e abusando de violência, não se intimida ao pôr o dedo na ferida do orgulho patriota americano. Explora todos os ângulos possíveis nesse quesito: as decisões diplomáticas e por vezes questionáveis, os métodos de obtenção de provas e evidências, o jogo de poder (em todos os níveis, até sexuais), os traumas, o drama de se sentir deslocado na volta pra casa, o orgulho cego de seus feitos, o dinheiro envolvido. São muitos os níveis de análise nesse espectro, e eu nem cheguei no lado humano da coisa toda!

Muito além do capricho da produção e do ótimo roteiro, grande parte do mérito por Justiceiro ser tão bom é o elenco. Apesar da extrema violência em algumas cenas (acostume-se ao banho de sangue desde o primeiro episódio, viu?), a interpretação de Bernthal é tão visceral que a gente mal desgruda o olho da tela mesmo nos piores momentos. Moss-Bachrach é de uma sensibilidade incrível ao fazer seu personagem absolutamente crível: um homem comum levado ao limite para defender sua família com a única arma que possui – sua inteligência. A química entre ambos é fascinante: não parece que estamos assistindo a dois atores interpretando, o que vemos são dois homens com personalidades completamente distintas e com as vidas destruídas tentando se virar como podem. Incrível. À exceção de Revah (que não consegue passar a impressão de mulher sutilmente forte e decidida que sua Madani precisa), todo o elenco principal entrega interpretações de primeira. A participação de Debora Ann Woll como Karen Page também é importante: Page fora salva por Castle na última vez em que se viram, e ela fora a grande responsável pela defesa pública do anti-herói. Desde então, há um laço pessoal entre os dois, que promete ser explorado mais para frente – o que pode vir a ser um calcanhar de Aquiles para Frank. Eu, particularmente, já shippo os dois.

Karen (Woll) e Frank disfarçado de Peter Castiglione: repeteco da excelente – e inusitada – conexão

Eu não li os quadrinhos do Justiceiro – aliás, minha memória do personagem era do filme de 2004, com Thomas Jane interpretando (à la Cigano Igor) o personagem principal e John Travolta como o vilão. Não é a melhor memória que eu podia ter dele que já tinha ganhado vida em 1989 com Dolph Lundgren, e não foi assim tão bem recebido pela crítica (apesar de muito fã curtir). Mas pelo que pude ler sobre a mitologia, essa versão da Netflix me parece bem mais ajustada à original – inclusive em sua gênese lá na segunda temporada de Demolidor. Aqui é a continuação desse fragmento lá (é um spin-off, né?) e eles acertaram em cheio. Se procurar pelo personagem, é fácil descobrir que um de seus maiores inimigos é o Rei do Crime – que foi magnificamente interpretado por Vincent D’Onofrio – e seria muito fácil trazê-lo para cá apenas para garantir a audiência. Mas – ainda bem! – que isso não foi feito e o Justiceiro teve a chance de se mostrar para o público como verdadeiramente é: um anti-herói de moral própria, que tem muitos defeitos e qualidades; um homem tentando se encaixar no mundo, apenas. Assim como eu e você – só que ele tem um jeito bem peculiar de escrever a própria história. Sorte nossa, que teremos muita coisa para assistir! Obrigada, Netflix.

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About Geisy Almeida

Formada em Fotografia, fã de boas estórias que sejam bem contadas - não importa se em forma de livro, filme, novela ou bate-papo. Curiosa e interessada em muitos assuntos, às vezes viajo na maionese.