Crítica: Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi


O subtítulo em português já entrega: não se trata de um filme leve. O interessante é notar o quão sutil Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi consegue ser diante de preconceitos e violências tão escancarados e feridas ainda tão abertas, mesmo tanto tempo tendo se passado desde a Segunda Guerra Mundial, época em que a história, baseada no livro de Hillary Jordan, é ambientada. 

Dirigido por Dee Rees (que também assina o roteiro ao lado de Virgil Williams), o longa faz suaves passagens de protagonismo ao decorrer da trama. Começamos acompanhando a saga de Laura (Carey Mulligan), uma jovem que encontra no casamento a saída para seus problemas: ela própria admite que o sentimento que nutre por Henry (Jason Clarke) é muito mais gratidão do que amor.

Para ela, considerada uma solteirona na época, ser notada e cortejada por um homem era o suficiente. Até a possibilidade de uma paixão, quando conhece o cunhado, Jamie (Garrett Hedlund), fica soterrada diante da possibilidade de formar uma família, o que logo se realiza – e ela, por tabela, se dá por realizada com o ápice de felicidade que uma mulher poderia almejar então.

Sua aparente fragilidade, no entanto, se transforma frente às adversidades. Sem consultá-la, o marido decide se mudar com ela, as filhas e o pai, Pappy (Jonathan Banks), para uma fazenda recém-comprada no Mississipi. A vida muda, de repente, e ela precisa se impor diante do autoritarismo de Henry e da intolerância do sogro. Embora impotente diante de várias situações, sua condição social e a cor de sua pele lhe concedem alguns privilégios – palavra desconhecida para a família que trabalha e vive na propriedade dos McAllan.

Hap (Rob Morgan) e Florence (Mary J. Blige) sonham com uma vida melhor. Mas eles sabem que, mesmo que consigam realmente conquistar o próprio pedaço de terra, isso pode não valer muita coisa num lugar onde a palavra do branco se sobrepõe à do negro e onde um pedaço de papel não importa muito diante da força bélica.

É com a presença deles (e as interpretações delicadas dos dois atores) que o filme cresce – nas relações de afeto entre eles, nas demonstrações de fé, nas relações confusas entre patrões e empregados, que ora soam cordiais, ora se revelam como são, autoritárias. O que nasce do solo que eles cultivam não lhes pertence, o lugar que eles ocupam (literal, na fazenda, e simbolicamente, dentro dessa sociedade), tampouco. É tudo um empréstimo, um favor, dos “verdadeiros donos”.

O filho mais velho dos Jackson, Ronsel (Jason Mitchell), no entanto, tem a chance de conhecer uma outra realidade ao ser convocado para a guerra. Uma realidade com tiros, explosões, escombros, perdas, traumas, e ainda assim, menos cruel que a vida em casa. Ele só descobre isso ao retornar da Europa e ser recebido de forma totalmente diferente da de Jamie, ele sim, respeitado como um herói nacional. O mundo quase entrou em colapso, mas as coisas não mudaram muito no sul dos Estados Unidos.

A aproximação, mais que natural, entre os dois ex-combatentes, unidos pelo trauma e por uma nova e inevitável visão de mundo, no entanto, faz com que as diferenças sociais gritem ainda mais alto – algo impensável na estreita visão dos racistas e supremacistas brancos. É triste notar como a submissão vira questão de sobrevivência num lugar onde é proibido existir.

A escalada de tensão do filme impressiona, e a vida lenta, modorrenta e lamacenta de todos os envolvidos explode num clímax poderoso e altamente incômodo, em especial quando se sabe que os intolerantes estão cada vez com menos pudor de dissimular seus discursos e atos de ódio em relação aos negros e outras minorias. Não estamos mais em guerra declarada militarmente, mas os campos de batalha continuam ativos, com mortos e feridos por todos os lados.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas