Crítica: No Portal da Eternidade


Willem Dafoe é Van Gogh no filme "No Portal da Eternidade"

Willem Dafoe é Van Gogh no filme No Portal da Eternidade

Uma coleção de acontecimentos representam de alguma forma qualquer pessoa? Duas horas, em se tratando de filmes, ou algumas centenas de páginas, no caso de livros, acaso dão conta de uma vida inteira? Então por que confinar uma figura fascinante à camisa de força de uma biografia ortodoxa vaga e reducionista? Felizmente, No Portal da Eternidade tem um entendimento diferente do que seria traduzir a essência de Vincent Van Gogh (Willem Dafoe) para uma tela grande – uma tela com sons, movimentos e impressões que ele próprio não poderia pintar.

O filme dirigido pelo cineasta Julian Schnabel, também artista plástico, opta por usar um filtro particular para tentar captar uma sensibilidade e transpor em sensações passagens já tão conhecidas do público sobre uma versão já até pitoresca do pintor. O belíssimo roteiro assinado pelo próprio Schnabel, junto com Louise Kugelberg e Jean-Claude Carrière, se esforça para traduzir uma visão de mundo. Há espaço de sobra para licenças poéticas, pois se trata obviamente de uma interpretação de um certo Van Gogh, e o longa deixa isso muito claro. É uma leitura possível, um recorte repleto de admiração e curiosidade, quase um manifesto a favor de sua arte e seu encantador olhar sobre as coisas.

Aqui, Van Gogh não deixa de ser apresentado como um artista marginalizado, que não se encaixa numa certa elite intelectual que encontra seu quartel general em Paris. Ele conta com o apoio de poucas pessoas próximas, como seu afetuoso irmão, Theo (Rupert Friend), e seu admirador e incentivador, Paul Gauguin (Oscar Isaac). Mas, para o público soterrado de filmes sobre pintores atormentados e perigosas romantizações sobre a relação entre transtornos mentais e criatividade, chega a ser um alívio se deparar com um retrato respeitoso sobre sua condição.

E isso não significa, de maneira nenhuma, ignorar o protagonista em sua totalidade. As fragilidades do holandês estão à mostra, em carne viva, mas são encarnadas com delicadeza por Dafoe em cenas quase silenciosas. Estão presentes em diálogos lúcidos, como no encontro com o padre vivido por Mads Mikkelsen, já depois de uma de suas internações, ou na consulta com seu médico logo após ter cortado a própria orelha. E aqui é interessante notar a primorosa decupagem do filme, que separa Van Gogh de seus interlocutores em muitas das conversas. Sendo assim, ele é sempre alvo de curiosidade do olhar de alguém que não o compreende, ao mesmo tempo em que está ou se sente isolado do mundo.

Sua confusão mental é ilustrada com diálogos se repetindo e imagens se sobrepondo em momentos cruciais: quando ecoam, por força de repetição, as palavras que ele não pode ou não quer ouvir afetam sua percepção da realidade e o impedem de seguir adiante. Por outro lado, algumas tomadas subjetivas são capazes de demonstrar como alguns de seus comportamentos pouco usuais podem ser assustadores para as pessoas a seu redor. Não é de se espantar que passe a ser persona non grata num dos lugares onde escolheu viver.

E a mágica fotografia de Benoît Delhomme potencializa as passagens contemplativas que mostram como a natureza é capaz de provocar torpor nos sentidos a quem está atento. É o caso de Van Gogh, que, por mais que admire pintores como Monet e Goya, busca um estilo próprio. Encontra, talvez, sem saber. Em certo momento, Gauguin quase o critica, dizendo que suas telas são praticamente esculturas, pela grande quantidade de tinta que ele coloca em cada pincelada. Um plano em preto e branco, então, mostra que não são só as cores que impressionam nas obras do holandês: ele reproduz, quase instintivamente, relevos em suas reproduções do mundo que apenas duas dimensões não dão conta de retratar.

Em seu desfecho, No Portal da Eternidade traz à tona ainda uma nova versão para a morte do pintor, vítima de um tiro no peito aos 37 anos: o episódio, tratado tradicionalmente pela História como suicídio aqui é contado de uma outra forma, que encontra apoio em biografias recentes. Mas certamente não é esse o maior mérito do filme, que carrega em sua concepção tanto lirismo e afeto, tintas que Van Gogh conhecia bem.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas