Crítica: O Círculo


Algumas décadas atrás encararíamos O Círculo apenas como uma ficção científica futurista. No mundo extremamente conectado de hoje, entretanto, a trama do filme parece ser apenas o próximo passo para nossas relações regidas pelas redes sociais.

Mae Holland (Emma Watson), é uma jovem que leva uma vida comum. O que inclui um emprego ruim que não supre as necessidades de sua família. Mas ela tem a grande chance de melhorar suas condições de vida quando sua amiga Annie (Karen Gillan, de Doctor Who e Guardiões da Galáxia), lhe consegue uma entrevista na melhor empresa do mundo. O Círculo, é uma empresa de tecnologia, cheia de jovens brilhantes e empolgados. Tem excelentes condições de trabalho, ambiente que estimula o convívio e a criatividade, proporciona entretenimento e possibilidades de interação entre seus membros funcionários. Estes são semanalmente inspirados pelas palestras de um de seus carismáticos e “endeusados” criadores, Bailey (Tom Hanks). Tudo que a empresa pede de você é que, tenha um bom desempenho e eventualmente socialize através de sua própria tecnologia.

Não demora muito para Mae descobrir que a “socialização” é mais que uma sugestão. Ter sua vida compartilhada e observada por todo o mundo, todo o tempo são os parâmetros em que a empresa se sustenta. Imposições que todos acabam aceitando por um motivo ou outro. No caso da jovem, a intenção é melhorar as condições de saúde do pai.

Paxton em seu último filme!

Voltado claramente para o público jovem, mas realista para qualquer pessoa dos dias de hoje, a trama é uma crítica cheia de nuances sobre nossa relação com a tecnologia de informação. Nossos, relacionamentos virtuais – e conseqüentemente a mudança os reais -, auto-exposição na mídia, a necessidade de saber e compartilhar tudo instantaneamente, além dos motivos que nos levam a participar desta sociedade virtual, bem como a forma que nos comportamos por causa dela. A crença de que só nos comportamos melhor porque estamos sendo vigiados, e isso criaria uma sociedade mais justa, é alarmante. Mas não tanto quanto o fato de que sempre existirão aqueles acima de qualquer sistema.

Assistir como diferentes pessoas reagem a essa “meritocracia midiática”, é uma das partes mais interessantes. Há quem fuja de tudo, mas a maioria abraça a loucura em diferentes níveis, e quem acorde para os malefícios disso cedo ou tarde. Acima de tudo isso, Bailey é quase uma versão messiânica de Steve Jobs, moldando seus seguidores e endossando suas escolhas, sempre com a sensação de que há algo podre sob a superfície. Nuances que Hanks tira de letra, a ponto de ser difícil imaginar outro ator no papel.

Quem também se destaca é Gillan e sua jovem completamente inserida na sociedade de O Círculo. John Boyega (Star Wars – O despertar da Força), tem um personagem que deveria ter maior importância na trama, mas tem pouco espaço no roteiro que prefere enfatizar a experiência da protagonista. Emma Watson entrega o que o papel precisa, mas não o melhor que ele poderia ser. Faltam uma dose de deslumbramento, e ambiguidade na jovem Mae que poderiam tornar sua jornada mais impactante. Ellar Coltrane (Boyhood – da infância à juventude), Patton Oswalt, Glenne Headly e Bill Paxton em seu último filme, completam o elenco.

Embora tenha muitos conceitos para apresentar, O Círculo se passa em uma realidade bem próxima à nossa, por isso é meio cansativo o ritmo lento que a produção escolhe para apresentar este universo. Quando finalmente “engrena”, o filme precisa trabalhar e resolver muitos conceitos em pouco tempo, o desenvolvimento melhora com o ritmo, mas o desfecho acaba soando incompleto. Muitas questões ficam apenas na sugestão e a reação imediata da maioria será a pergunta: Ué acabou?!

Hanks, sempre competente!

Por outro lado, essas sugestões deixam para a discussão pós-filme, excelentes questões de como aquela sociedade funcionará a partir de então. Além, dos muitos questionamentos e críticas levantados durante a projeção. Este é provavelmente um dos maiores méritos do longa, abordar de forma simples e acessível muitos temas pertinentes e relativamente novos a nossa sociedade.

Talvez esta seja a real intenção da produção, e do livro homônimo de Dave Eggers que a inspirou. Gerar discussão, fazer o expectador repensar a forma que vive e se relaciona com as pessoas e a tecnologia. Reflexão mais que necessária, que poucas produções conseguiram fazer de forma eficiente. Assim como alguns episódios da série Black Mirror e o filme Nerve, O Círculo é soco na estômago de quem apenas existe no mundo virtual, sem pensar muito sobre ele. Com a diferença que um filme estrelado por Tom Hanks e Emma Watson, pode colocar muito mais gente para rever seus conceitos.

Texto originalmente publicado no blog Ah! E por falar nisso…

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About Fabiane Bastos

Jornalista especializada em cultura, viciada em filmes, séries e livros não necessariamente nesta ordem. Adoraria poder visitar os mundos que só conhecemos pelas páginas e telas, ou chegar o mais próximo disso possível!