Crítica: Oito Mulheres e um Segredo


Não espere grandes ousadias de Oito Mulheres e um Segredo: o longa dirigido por Gary Ross se sustenta no arroz com feijão dos filmes do gênero e se garante no roteiro esperto e na presença marcante de suas protagonistas. A sorte é que a química acontece, e o resultado é uma sessão da tarde divertida, sem grandes pretensões.

Desta vez, a família Ocean é representada por Debbie (Sandra Bullock), recém-saída da cadeia: ela cumpriu pena após ter sido envolvida pelo ex, outro golpista, e gastou seus preciosos cinco anos na prisão bolando todos os detalhes para garantir o sucesso do próximo plano. Seu alvo, um colar que vale 150 milhões de dólares, a ser usado por uma celebridade no Met Gala, tradicional baile no Metropolitan Museum, em Nova York.

A graça aqui é brincar com o universo em que as próprias atrizes do filme estão inseridas, com muitas referências a pessoas reais, como Leo (sim, só existe um Leo), e pontas de Heidi Klum, Serena Williams e Katie Holmes, entre outras. Mas é Anne Hathaway, na pele da afetada Diane Kluger, a responsável por portar a joia em questão, quem mais debocha do falso glamour, da futilidade e da arrogância de Hollywood.

Contam muito a favor do filme as ótimas atuações de todas as protagonistas e das piadas certeiras do roteiro, como a que mostra que homens não fazem falta no time. Quando Lou (Cate Blanchett) sugere um cara para a equipe, Debbie logo o descarta, exatamente por ser do sexo masculino. “Ele vai chamar a atenção. Nós queremos ser ignoradas”, dispara a golpista. Assim nos filmes, como na vida.

O recrutamento, aliás, ocupa bastante parte do filme, como é de praxe. É aquele momento crucial de apresentar as personalidades e talentos de cada integrante. Exatamente por isso, o filme fica devendo na caracterização de Lou, que é amiga ha muitos anos de Debbie e a número dois da quadrilha – mesmo assim, a personagem é pouco aproveitada, ainda mais nas mãos de uma atriz desse quilate (com trocadilho).

Roubam a cena, portanto, Nine Ball (Rihanna, praticamente interpretando a si mesma, adoravelmente marrenta), Constance (Awkwafina, hilária como a larápia sem traquejo social) e Tammy (Sarah Poulson, impecável como a mãe amorosa e criminosa). Helena Bonham Carter faz o que pode com sua Rose Weil, embora o papel da estilista se pareça demais com os tipos desajeitados que ela interpretou durante toda sua carreira, e Mindy Kaling é sempre divertida em cena, embora sua Amita, a especialista em pedras preciosas, precisasse de mais tempo de tela. Entre os homens, o destaque total é de James Corden, numa participação especial já no final: com poucas falas, ele garante boas quantidades de risadas por minuto.

O desenvolvimento do golpe corre sem muitas surpresas (Debbie poderia dar umas lições ao Professor de La Casa de Papel), e a trama exige do público a suspensão da descrença em vários momentos – algumas soluções praticamente impossíveis aqui e ali -, mas nada que comprometa de fato o resultado final.

Aqui o filme poderia apostar um pouco mais no conflito entre o grupo causados por outros interesses em jogo (como o desejo de vingança de Debbie contra o ex), mas fica claro que os criadores estão mais interessados em mover a história principal adiante.

A agilidade da edição, aliás, mantém a fluidez e o bom ritmo até o fim, grande trunfo dos heist movies em geral e da franquia Ocean capitaneada por Soderbergh (a que o filme faz simpáticas referências).

Como manda a cartilha, até as reviravoltas finais estão lá, mas, além de não tomarem muito tempo da trama, nesta altura, o espectador já foi conquistado. Se é necessária uma continuação? Nem um pouco. Mas não dá para reclamar se esse time se reunir outra vez.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas