Crítica: Pantera Negra


Olhar para Pantera Negra como apenas mais um filme de super-herói é o mesmo que acreditar que Wakanda é mesmo uma nação subdesenvolvida no continente africano. Da mesma forma que a potência tecnológica do país liderado por T’Challa (Chadwick Boseman) permanece escondida do mundo exterior, a crítica social do filme poderia ser ofuscada pelo formato já consagrado de humor leve e ação frenética que firmaram os Vingadores como franquia bem-sucedida em Hollywood. Felizmente, a nova aposta da Marvel nos cinemas não se resume a isso.

O longa tem, sim, ótimas sequências de luta, e boas piadas aqui e ali, mas não abre mão do principal: uma boa história, com personagens fortes e cativantes, dentro de um universo absolutamente encantador. Wakanda é um país do futuro, que ultrapassa qualquer estereótipo preconceituoso e elitista, mas, ao mesmo tempo, tem suas raízes profundamente fincadas na África mais tradicional. A coroação de T’Challa, herdeiro natural do trono após a morte de T’Chaka (John Kani) em Capitão América: Guerra Civil, é um exemplo claro de que é preciso muito mais do que milhões gastos em CGI para nos transportar para outro lugar: o ritual  faz transbordar na tela ancestralidade, sob o olhar respeitoso do diretor Ryan Coogler.

Baseada em conceitos de respeito e justiça – o líder só é líder se todas as tribos estiverem de acordo; caso contrário, o novo rei é eleito após uma luta em igualdade de condições, sem a força da pantera negra -, a cerimônia é do tipo que nos faz questionar a legitimidade de monarquias puramente hereditárias e eleições supostamente democráticas, que quase sempre se mostram passíveis de fraudes e manipulações.

A mensagem é clara: são os valores de T’Challa que o tornam o herói do filme, não um título ou um traje a prova de balas. E isso fica evidente com a figura de Erik Killmonger (Michael B. Jordan), o principal antagonista do filme, que vai, muito inteligentemente, comendo pelas beiradas. O fato de ele, à primeira vista, aparentar ser apenas um capanga de Ulysses Klaue (Andy Serkis), serve bem à trama e lhe dá novas camadas: ele é o cara invisível, subestimado e paciente, que passou sua vida toda tramando sua vingança.

Mais importante: vingança que ele acredita veementemente ser uma reparação histórica. E é daí que vem a sua força – como todo bom vilão, ele acredita estar do lado certo, fazendo a coisa certa. Consegue convencer pessoas do bem, também rejeitadas, frustradas e com a mesma raiva do mundo, a segui-lo sem ponderar muito.

Quando a ameaça se torna real, a luta pelo trono é mais do que uma disputa individual pelo poder. O que está em jogo são diferentes visões de mundo numa posição de liderança, é o destino de um povo. É um embate que se assemelha muito, no campo das ideias, ao de Magneto e Xavier, por exemplo.

E o roteiro traz um dilema verossímil e bastante poderosa para o protagonista, que durante muito tempo acreditou que sua função fosse continuar o legado de seu pai, a quem sempre admirou. Além de lidar com a culpa pela morte dele, o herdeiro se vê ainda obrigado a encarar os erros de T’Chaka e a questionar suas próprias convicções. Um herói de carne e osso, que treme diante da mulher amada, que se decepciona e que entende que precisa ouvir o outro – processo que se desenrola aos poucos e culmina numa poderosa cena extra (a primeira), que dialoga diretamente com líderes como Donald Trump, que acredita poder governar um país como os Estados Unidos como uma criança egoísta e tirana.

Pantera Negra surpreende positivamente ainda ao trazer personagens femininas em funções importantes e com personalidades tão marcantes como a determinada Nakia (Lupita Nyong’o), que abre mão do relacionamento com o príncipe para seguir sua vocação, a valente Okoye (Danai Gurira), que comanda o exército Dora Milaje com mão de ferro, e a brilhante Shuri (Letitia Wright), que desenvolve as maiores criações tecnológicas do país e ainda tira sarro do futuro rei. Elas não orbitam em torno de T’Challa; elas têm sempre Wakanda em primeiro lugar – por isso mesmo, são peças fundamentais na luta pelo restabelecimento da ordem e também na construção de um novo diálogo com o mundo exterior.

O elenco majoritariamente negro – que conta ainda com ótimas atuações de Daniel Kaluuya, Angela Basset, Sterling K. Brown e Forest Whitaker em papéis centrais – é um grande acerto do filme, e certamente é de se louvar tamanha representatividade num produto de projeção tão grande. Mas a importância política do filme não é só essa. É possível arriscar além do senso comum em Hollywood. É preciso. Entretenimento, boa dramaturgia e crítica social e política não são coisas excludentes, e Pantera Negra sabe disso. Por isso mesmo, será lembrado como bem mais que uma história de super-herói.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas