Crítica: Robin Hood


A mais nova versão de Robin Hood nos cinemas traz a proposta de desconstruir o herói: nada contra a atualização, o problema é que a atual caracterização do arqueiro erra feio na mira e acaba esvaziando o personagem.

O longa dirigido  por Otto Bathurst lembra em parte a tentativa de Guy Ritchie de revitalizar Sherlock Holmes, transformando o clássico detetive em um herói de ação. Mas, até como aventura, a produção não convence, pois apresenta sérios problemas de ritmo.

O mais grave, no entanto, é que falta substância a Robin de Loxley (Taron Egerton), que conhecemos rapidamente como um jovem rico e galanteador, que se apaixona instantaneamente por Marian (Eve Hewson). O romance é interrompido quando o jovem é recrutado para a guerra, onde encontra Little John (Jamie Foxx), um rival à altura, tão hábil quanto ele no uso do arco e da flecha. Uma situação limite os coloca frente a frente, e a relação que se desenvolve a partir dali se transforma rapidamente na tradicional aliança mestre e pupilo.

O problema aqui é que Robin precisa ser convencido de absolutamente tudo que o faz ser quem ele é no imaginário coletivo. A ideia de roubar dos ricos, por exemplo, vem de seu novo aliado.  A de distribuir o fruto de seus furtos para os pobres, de Marian. O protagonista não tem um plano próprio, a não ser reconquistar a amada, que, depois de pensar que ele havia morrido em combate, refez sua vida ao lado de outro homem, Will (Jamie Dornan).

A própria crítica social implícita nas atitudes do Príncipe dos Ladrões fica em segundo plano, porque a narrativa se apoia em um plot rocambolesco de conspiração e traição à pátria, mas as reviravoltas soam apenas superficiais. A cena que deveria ser a mais tensa do filme, quando o arqueiro se arrisca para se aproximar do xerife de Nottingham (Ben Mendelsohn) e do cardeal, lembra os famosos desfechos explicativos dos episódios de Scooby-Doo. E o vilão caricatural desperdiça o talento de Mendelsohn, que sofre com as falas caricaturais e cafonas de seu personagem.

O longa ainda tenta  dar um verniz de Bruce Wayne/Batman a seu protagonista, o que poderia transformá-lo em um personagem mais dúbio e charmoso, mas a estratégia morre na praia. Tudo é raso e mal aproveitado na história, que é ambiciosa, mas peca pela falta de pontaria. Não basta, afinal, uma roupagem (ou uma roupa) nova para atualizar um ícone – ao contrário, é preciso entender e respeitar sua essência, além de não perder o alvo de vista.

Leia também


About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas