Crítica: Shazam!


Se houve um tempo em que o universo estendido da DC nos cinemas era conhecido por seu lado sombrio, isso agora é passado. Depois da forte investida de Aquaman no humor, Shazam! se assume de vez como comédia, o que é um grande acerto. O resultado é um filme leve e divertido, recheado com momentos ternos, uma combinação perfeita para um filme natalino da Sessão da Tarde. O ingênuo e deslumbrado protagonista do longa – e que adolescente de 14 anos não seria? – tira todo o peso de um tradicional exemplar do gênero. O supervilão da vez quer controlar todos os poderes do universo, mas ele só se torna uma ameaça mesmo ao colocar em perigo o núcleo que é a base de toda a história: a família.

Na trama de Billy Batson (Asher Angel), a ausência mais marcante é a figura de sua mãe, que ele procura incessantemente desde que se perdeu dela, aos 3 anos, num parque de diversões lotado. Acomodado em um novo lar adotivo, o jovem tem dificuldade de se adaptar à rotina do casal Rosa (Marta Milans) e Victor Vasquez (Cooper Andrews), que têm ainda outros cinco filhos não biológicos. Sua relação mais imediata é com Freddy (Jack Dylan Grazer), um nerd admirador de super-heróis como Batman e Superman. Por causa de sua deficiência física, é vítima de bullying no colégio.

Ao tentar protegê-lo de mais uma surra, Billy acaba embarcando na viagem de metrô mais estranha de sua vida, que o leva até a Pedra da Eternidade, onde conhece o mago Shazam (Djimon Hounsou). Em busca de um substituto, alguém puro de coração capaz de parar os Sete Pecados Capitais, libertos pelo Dr. Silvana (Mark Strong). E um dos únicos senões do roteiro de Henry Gayden é que esse universo da magia, exatamente o diferencial deste para outros colegas super-heróis, é apresentado com muita pressa. Um pouco mais de tempo aqui faria um bem danado para a narrativa.

E é assim, de uma hora para outra, que um moleque que acabou de fugir da escola vira um adulto musculoso, num uniforme chamativo, e um ser tão poderoso ou mais que o Homem de Aço. É tudo tão inacreditável que o adolescente tem dificuldades de assimilar sua nova forma e, claro, sua missão a partir de agora. Com seus grandes poderes, não vem nenhuma responsabilidade, o que garante uma série de sequências hilárias no filme dirigido por David F. Sandberg.

O herói, agora na forma adulta de Shazam (Zachary Levi), precisa da ajuda de Freddy para descobrir suas habilidades (e uma função social para elas, além de carregar os celulares das pessoas ou ativar caixas eletrônicos). Claramente o irmão de Billy não é a pessoa mais adequada para guiá-lo em seu caminho para o Olimpo, já que a primeira providência dele é filmar seus feitos incríveis e postar no YouTube. É uma delícia acompanhar as trapalhadas da dupla, que só quer levar vantagem, parecer importante e, por que não?, ganhar dinheiro com a fama. A inocência só é quebrada com a chegada de Silvana, que precisa derrotar seu único oponente.

Apesar de ser apresentado também com questões familiares, que poderiam justificar sua sede de vingança e destruição, o vilão não chega a ser propriamente interessante. Seu primeiro confronto é diretamente contra o pai e o irmão, que sempre o menosprezaram, e depois sua atenção se vira contra o rival. Embora sua ameaça real nunca seja sentida de verdade, o cientista mira justamente no ponto crucial para Billy/Shazam: sua nova família, formada por Freddy, Darla (Faithe Herman), Eugene (Ian Chen), Pedro (Jovan Armand) e Mary (Grace Fulton). E só quando o adolescente entende a importância deles é que pode, finalmente, ser chamado de herói. A reunião do grupo, aliás, é um dos pontos altos do filme, que só aumenta a expectativa por vê-los em outros contextos, seja no combate contra o Adão Negro ou em outras aventuras do time DC.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas