Crítica: Três Anúncios para um Crime


Há um ano a vida de Mildred Hayes (Frances McDormand) é uma luta solitária. Seus dias giram em torno de um crime sem solução, o brutal assassinato de sua filha, Angela (Kathryn Newton), estuprada e carbonizada. Sem nenhuma pista sobre o culpado, ela decide tomar uma atitude pouco ortodoxa e aluga três outdoors para cobrar das autoridades locais uma resposta.

Como previsto, a jogada chama a atenção da mídia para o caso, mas também atrai um forte efeito colateral: faz com que a cidade fique automaticamente contra ela, que aparentemente perturba a ordem da cidadezinha de Ebbing e coloca o xerife Willoughby (Woody Harrelson) numa posição delicada.

 

No entanto, em Três Anúncios sobre um Crime, o chefe da polícia não é o verdadeiro vilão: ele demonstra empatia pelo esforço daquela mãe, se justifica, lamenta estar de mãos atadas diante da falta de evidências. Mais do que isso. Ele próprio vive uma grande crise pessoal que tenta administrar da melhor maneira possível, evitando deixar transparecer para as pessoas mais próximas como realmente se sente.

Isso tudo só torna a situação ainda mais dramática – sem ele para responsabilizar, Mildred volta à estaca zero, e o público só tem a opção de torcer o tempo todo para aparecer o culpado, para que ela (e a gente, por tabela) consiga direcionar essa raiva represada, esse sentimento de impotência, que possa, enfim, viver seu luto em paz.

Ao mesmo tempo que é uma mulher implacável, a protagonista, conduzida com muita sensibilidade por McDormand, mostra-se vulnerável diante do ex-marido abusivo, Charlie (John Hawkes), que a trocou por uma amante bem mais jovem. Quando ele levanta a voz e se torna mais agressivo, ela treme, quase num reflexo, mas é ao ouvir dele que Angela não queria mais morar com a mãe que seu mundo desmorona. A ideia de que a última conversa que tiveram foi uma discussão por um motivo estúpido é algo que a martiriza constantemente.

Acontece que, em sua busca por justiça, Mildred comete vários excessos, nem todos justificáveis pela perda da filha. Destemida, ela não se furta a dizer várias verdades na cara de um padre, a ser cruel com uma vítima de câncer terminal, a usar alguém que tem sentimentos por ela, e a cometer, ela mesma, um crime. Envolta em sua dor, ela cruza a linha que delimita até onde os cidadãos de bem estão permitidos a ir. E o filme do diretor e roteirista Martin McDonagh faz esse jogo com suavidade, sem crucificá-la nem abrandar seus deslizes, que a enchem de remorso – geralmente, tarde demais.

 

Do mesmo modo, o personagem mais odiável do longa, o policial Dixon (Sam Rockwell) também é tridimensional. Racista, arrogante, violento, mimado e covarde, carrega nas costas um abominável histórico de violência contra negros, que ele se orgulha em ostentar – e sua mãe, vivida por Sandy Martin, certamente aprovaria. Apesar disso, o oficial é também, a seu modo, um sujeito divertido, em boa parte graças ao carisma de seu intérprete (embora o humor seja um elemento importante e bastante presente em toda a história).

Dixon demonstra ainda momentos de fragilidade, tem rompantes de coragem e, eventualmente, diante de circunstâncias que fogem ao seu controle, sente vergonha de suas atitudes. Tal perfil gerou vários debates sobre uma possível redenção do personagem, mas o caminho trilhado por ele é bem mais tortuoso e menos heroico do que pode parecer à primeira vista. Seu desfecho, inclusive, sugere que ele irá manter o mesmo padrão desviante de comportamento, embora suas motivações, aparentemente, tenham se transformado.

As cenas finais de Mildred e Dixon são primorosas, especialmente, por tudo que não é dito nos momentos de silêncio entre eles. Duas pessoas tão complexas e perdidas, querendo acertar, mas sem a menor ideia de como fazer isso. O sentimento de impotência. A esperança e a falta dela. O choro preso na garganta. A culpa. A dúvida. O desejo de vingança e a (quase) certeza de que a justiça não será feita. A busca pelo alívio e pelo fim de uma luta tão solitária.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas