Crítica: Venom


 

Nem dá para dizer que Venom é apenas mais um filme de herói, apenas  porque seu protagonista, vilão do universo do Homem-Aranha, não se encaixa exatamente nessa categoria. O fato é que a narrativa simplista e mal resolvida do longa não ajuda a ganhar nossa torcida (contra ou a favor): o filme simplesmente não diz a que veio, e o resultado é uma história dispensável e completamente esquecível.

Se Venom, o personagem, não fica bem definido, a fórmula utilizada no desenvolvimento da trama é praticamente um molde copiado de praticamente todos os filmes do gênero que você já viu na vida. Carlton Drake (Riz Ahmed), um cientista arrogante e inescrupuloso resolve dispor de vidas inocentes para satisfazer sua pretensa genialidade. Não há dilemas morais envolvidos, não há ambiguidade, não há hesitação. O filme é em carne e osso, mas o vilão continua sendo bidimensional, como um contorno de desenho de HQ.

Já passou da hora de produções do gênero encontrarem novos formatos e novas linguagens (Logan está aí para provar que é possível) e apostarem no aprofundamento dos temas (Pantera Negra não me deixa mentir). Então moradores de rua e pessoas pobres e invisibilizadas são utilizadas como cobaias e o roteiro não dedica cinco minutos a uma discussão ética? No caso, a única personagem horrorizada só serve como desculpa para trazer Eddie Brock (Tom Hardy) ao local dos experimentos, aquele momento do acaso que já estávamos aguardando para prosseguir com a nossa história padrão.

A partir daí, o longa vira uma história de sobrevivência/adaptação à nova realidade, com toques bem forçados de humor. As piadas são tão deslocadas e infantis que parecem ter sido inseridas na marra apenas para não saírem por aí espalhando que a Marvel esqueceu como se faz um filme divertido.

E não importa, claro, se o roteiro tem furos tremendos: a grande preocupação do cientista era encontrar um hospedeiro compatível para as criaturas, uma tarefa que não era fácil e demandava inúmeras tentativas frustradas. De uma hora para outra, qualquer um passa a ser o receptáculo ideal, sem maiores perigos ou consequências (sorte do cachorrinho, azar o nosso).

E o que é que Venom, a criatura, quer mesmo? Dominar a Terra? Exterminar os humanos? Pilotar o Tom Hardy? Quando um alienígena pior do que ele surge, seu objetivo passa a ser combatê-lo. Nada como um mal maior para dar certa perspectiva. Mas a bagunça já está feita, e tudo que cabe a Michelle Williams, pouco aproveitada no papel ingrato de interesse amoroso do mocinho, é apertar um botão de vez em quando.

O público do gênero merecia um pouco mais de consideração do que esse filme apressado, truncado e absolutamente sem propósito. E “mais” não significa a promessa de uma continuação, assinalada por meio de fan services gratuitos. Uma boa história bastaria.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas