Doutor Estranho, porém familiar…


Não é só de terroristas, alienígenas, máquinas revoltadas e vilões superpoderosos que vive o universo Marvel. Existem também ameaças místicas e de outras dimensões. E, depois do sucesso de Guardiões das Galáxias, o estúdio percebeu que já é hora de explorar conceitos mais complexos e personagens menos conhecidos.

Ok, admito! Conceitos mais complexos sim, mas nem tanto. Doutor Estranho traz todo um novo universo, mas ainda é um filme com todas as marcas registradas do Marvel Cinematic Universe.critica-doutor-estranho-1

O doutor Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) é um renomado neurocirurgião, milionário e arrogante, que em um acidente de carro perde o controle das mãos e, consequentemente, suas habilidades cirúrgicas. Obcecado com a cura, acaba descobrindo o Kamar-Taj, um lugar não apenas de cura, mas também de treinamento e proteção contra forças místicas.

Necessariamente uma história de origem, o arco de Stange até se tornar o Doutor Estranho não é dos mais inovadores. Pessoa bem-sucedida e arrogante, que, ao perder tudo, descobre que o mundo vai muito além do próprio umbigo. A novidade aqui é a proporção desse “além”. Outras dimensões, realidades alternativas, espelhadas, habilidades místicas e ameaças de cuja existência a humanidade não faz ideia.critica-doutor-estranho-1

É para representar os conceitos deste “novo universo” que o filme foge um pouco à formula Marvel, adotando um conceito visual próprio, meio louco e psicodélico. Uma mistura de A Origem, Matrix, animações de Hayao Miyazaki e os próprios quadrinhos do Doutor Estranho, claro. E, apenas por isso, é um dos raros filmes que recomendo de cara: veja em 3D, Imax, salas especiais. Enfim, na melhor tecnologia possível. Pois, apesar de convertido, o resultado é deslumbrante.

De volta ao roteiro, e à “fórmula segura”, Strange vai aprender sobre aquele mundo (e nós também), perceber sua insignificância e escolher lutar por algo maior que ele. Enquanto o vilão vivido pelo sempre eficiente Mads Mikkelsen soa um tanto quanto genérico. Ainda não é o grande antagonista do protagonista, não demoramos para perceber isso.critica-doutor-estranho

A jornada é previsível e tem o tom típico da franquia, afinal o longa ainda faz parte deste universo, apesar dos incontáveis multiversos que abriga em seu próprio mundo. E tudo isso é explicado à exaustão, para garantir que nem o espectador mais desinteressado se perca. Além de bom humor, para alguns, no entanto, as piadas podem soar deslocadas ou exageradas em alguns momentos.

Estes pequenos equívocos e previsibilidades, no entanto, são compensadas pelo elenco escolhido a dedo. Mikkelsen é especialista em vilões e entrega o melhor trabalho possível mesmo com um previsível. Chiwetel Ejiofor vive um personagem em construção e consegue mostrar as muitas camadas de sua personalidade. Rachel McAdams, intérprete da Dra. Christine Palmer, única conexão de Strange no mundo real, curiosamente consegue marcar presença no pouco espaço que lhe é dado, especialmente depois que o misticismo entra em cena.

A escalação de Tilda Swinton para o papel de “Ancião” causou certo burburinho inicialmente, por ela ser mulher. Mas a personagem é encarada como uma entidade, gentil, imponente e ameaçadora ao mesmo tempo. Tente pensar em outro intérprete que não Swinton para tal.critica-doutor-estranho-3

O destaque, é claro, fica com Cumberbatch. Esforçado, faz até as falas mais fracas soarem bem, assim como os muitos gestos quando feitiços são executados (Tilda também parece fazer magia há décadas). Carismático, consegue conferir personalidade própria para um personagem com mesmos moldes de outro favorito do universo. O milionário arrogante, com quem nos importamos… quem aí lembrou de outro cara da Marvel? A diferença é que enquanto o Homem de Ferro tem sua autoconfiança reafirmada. Stephen Strange descobre um novo caminho, algo maior que ele.

É nesse novo caminho que deixamos o personagem, com ganhos para sua próxima aventura e outros filmes do estúdio, depois de duas horas de diversão bem produzida. E participação de Stan Lee e duas cenas pós-créditos (NÃO SAIA DO CINEMA!), como de costume.critica-doutor-estranho-2

Doutor Estranho não é uma revolução na fórmula Marvel (nem acredito que o estúdio esteja procurando por uma, mexer em time que está ganhando?). Mas é uma boa e divertida novidade, além de expandir o universo e torná-lo mais louco e interessante.

Texto originalmente publicado no blog Ah! E por falar nisso…

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About Fabiane Bastos

Jornalista especializada em cultura, viciada em filmes, séries e livros não necessariamente nesta ordem. Adoraria poder visitar os mundos que só conhecemos pelas páginas e telas, ou chegar o mais próximo disso possível!