Festival do Rio 2018


Entre os filmes que assistimos no Festival do Rio 2018, o saldo foi mais que positivo: entraram na lista produções do Brasil, da Argentina, do México, do Japão, da Dinamarca, entre outros, e alguns premiadíssimos no Festival de Berlim e no Festival de Cannes.

Listamos abaixo os nossos destaques e as nossas impressões sobre cada um.

 

Assunto de Família

Há muita sensibilidade no filme de Hirokazu Koreeda, vencedor da Palma de Ouro em 2018, e a aparente simplicidade da trama é desenrolada de forma gradual e orgânica até a completa revelação de que há questões muito complexas e profundas discutidas ali.

A entrada repentina de uma menina para uma família de pequenos trambiqueiros vai pouco a pouco mostrando como funciona a moral torta de cada um deles, ao mesmo tempo em que descortina a vida de uma parcela da população japonesa que vive na pobreza e à margem do sistema.

É tudo muito sutil, e conduzido com habilidade. O resultado é comovente e impactante.

 

A Casa que Jack Construiu

Em muitos filmes de Lars von Trier é possível perceber, no meio do caos e da violência, um viés crítico e reflexivo. Não é o caso de sua obra mais recente, uma egotrip que, mesmo entrecortada por um pretenso discurso filosófico de seu protagonista sobre arte e criação (pulsões do próprio diretor?), sustenta-se em cenas extremamente gráficas com o único intuito de chocar o espectador.

Matt Dillon se destaca no papel de um serial killer complexo, que se transforma diante dos nossos olhos, mas isso parece um detalhe diante do show de misoginia e sadismo do roteiro.

 

Clementina

É respeitoso e afetuoso o documentário de Ana Rieper sobre Clementina de Jesus. Embora não traga tantas novidades e curiosidades desconhecidas do público, funciona como uma bela homenagem à cantora, principalmente por destacar sua importância para o fortalecimento da memória da cultura negra e africana na música popular brasileira.

Outro mérito é privilegiar sua personalidade e seu talento, em vez de optar pelo caminho tradicional de contar a história de uma empregada doméstica que conheceu a fama depois dos 60 anos. A artista vem antes mesmo do reconhecimento.

 

Compra-me um Revólver

Ser mulher é um risco real no universo distópico do filme mexicano, mas a protagonista Huck aprende desde cedo a sobreviver escondendo quem realmente é.

É comovente ver sua inocência, seus medos e sua coragem diante de um ambiente tão ameaçador, quando conta apenas com a frágil proteção de seu pai, viciado em drogas e um tanto inconsequente.

 

Culpa

O filme dinamarquês cumpre com louvor o desafio de criar uma história tensa e dramática em condições restritas: uma única locação – o centro de emergências onde trabalha o protagonista -, uma duração que simula o tempo real e uma ação essencial para a trama que o espectador não vê durante toda a projeção.

O longa de Gustav Möller dispersa sabiamente apenas as informações necessárias para a compreensão da história e consegue manter o público com respiração presa e a imaginação ativa o tempo todo, além de entregar um desfecho emocionalmente potente. Não é pouca coisa.

 

Deslembro

Existe uma doçura na forma com que Flávia Castro conta essa história de saudades, vazios e lacunas. É um filme delicado sobre as memórias de uma adolescente que tenta preencher como pode esses espaços enquanto segue seu próprio caminho.

O elenco infantojuvenil é especialmente admirável, mas todas as relações são permeadas por uma rede de afeto que se contrapõe como resistência a um período histórico sombrio.

 

O Dia que Resistia

A narrativa é trivial e envolvente: sozinhos, três irmãos constroem o próprio mundo e as próprias regras enquanto esperam a volta dos pais. Os medos e as angústias ora são reprimidos, ora são exprimidos por reações não verbais, e ora são elaborados com a ajuda da linguagem dos contos de fada.

O filme de Alessia Chiesa é encantador pela naturalidade dos atores mirins e perturbador pela ausência de respostas que aliviariam a tensão do espectador, e a combinação dá muito certo.

 

Infiltrado na Klan

É impressionante como um filme sobre uma organização repugnante como a Ku Klux Klan pode ser, em alguns momentos, engraçado. Mas o longa de Spike Lee consegue ridicularizar os supremacistas ao apostar num protagonista debochado e tirar proveito de situações absurdas – que, por incrível que pareça, são baseadas numa história real.

O ritmo ágil, os diálogos espertos e a sensibilidade ao retratar a questão racial nos EUA são os principais trunfos da narrativa, que não se furta em atualizar o que seria uma história “de época” para o contexto político atual norte-americano.

 

O Peso do Passado

Nada convence neste thriller de Karyn Kusama: a atuação de Nicole Kidman (num daqueles papéis pensados estrategicamente para o Oscar), o mistério da trama policial, o drama embutido nos flashbacks, as relações familiares e o fraco twist final.

Uma pena que a mistura, conduzida com mão pesada, não tenha dado certo, porque a atriz é competente e se arrisca num tipo bem diferente do habitual na pele de uma detetive depressiva e atormentada pela culpa de alguns erros do passado. Mas não há maquiagem no mundo que substitua as camadas que a história, carente de sutilezas e consistência, não consegue oferecer ao público.

 

Não me Toque

O filme, vencedor do Urso de Ouro em 2018, propõe-se a ser um jogo entre documentário e ficção acerca da intimidade e alcança alguns planos belíssimos, como as invisíveis fronteiras entre corpos, e momentos singelos e reflexivos, como as reflexões de dois desconhecidos após um contato íntimo. Mas o longa da romena Adina Pintilie se perde em artificialismos e soluções dramáticas confusas em grande parte da projeção, além de abordagens problemáticas.

O sexo, por exemplo, parte importante do discurso, é colocado apenas como fetiche ou trauma, o que provoca algumas cenas constrangedoras do ponto de vista narrativo, como o falso encontro de dois personagens numa casa sadomasoquista ou o confronto entre uma das protagonistas e um pretenso terapeuta. No fim, os acertos acabam ofuscados pelo conjunto irregular e pretensioso.

 

THF: Aeroporto Central

É uma escolha interessante observar a permanência de refugiados no aeroporto de Tempelhof, em Berlim, construção ambiciosa do regime nazista, que hoje serve de abrigo a pessoas sem um lar definitivo e com mais esperanças do que certezas em relação ao futuro.

Mas, apesar de capturar momentos de personagens interessantes, como o médico sírio que hoje trabalha como atendente e tradutor no posto sem saber se voltará a exercer a profissão, o filme de Karim Aïnouz é frio e distante a maior parte do tempo.

O formato cronológico dilui as histórias principais, e a sensação é de que o documentário poderia ter ido muito além.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas