“Gilmore Girls: Um Ano para Recordar”, o revival que os fãs mereciam


Rory (Alexis Bledel) e Lorelai (Lauren Graham) em cena de Gilmore Girls: Um Ano para Recordar

Rory (Alexis Bledel) e Lorelai (Lauren Graham) em cena de Gilmore Girls: Um Ano para Recordar

“Qual é a sensação?”, pergunta Rory. “Parece… certo”, responde Lorelai. A conversa entre mãe e filha, que acontece num momento crucial de Gilmore Girls: Um Ano para Recordar, descreve perfeitamente como um fã da série se sente assistindo ao revival promovido pela Netflix. É como voltar para casa depois de uma longa viagem e encontrar tudo meio igual e um pouquinho diferente. Afinal, quem mudou foi você. As meninas Gilmore, por sua vez, continuam adoráveis como sempre.

De volta às mãos de sua criadora, Amy Sherman-Palladino (afastada da função de showrunner na sétima e derradeira temporada), a série mantém suas principais características: a leveza, uma certa excentricidade e muita sensibilidade. Muito provavelmente a trama seria mais adequada para uma temporada final do que para uma retomada – fica bem claro que Amy sabia bem aonde queria chegar, não só pelas famosas “quatro últimas palavras” finalmente ditas agora, mas por todo o percurso das protagonistas, encerrando um ciclo com maestria e deixando um gostinho de quero mais.

Algumas das decisões de Rory (Alexis Bledel) e Lorelai (Lauren Graham) que acompanhamos só agora deveriam ter sido tomadas lá atrás. Mas, mesmo com alguns anos de atraso, tais situações não parecem forçadas. Não se trata, obviamente, de uma reunião oportunista, mas de um encerramento necessário para trazer paz ao coração (especialmente após aquele desfecho apressado, aborrecido e sem muita alma), mas não sem antes algumas risadas e uma boa quantidade de lágrimas.

Quando Gilmore Girls estreou, em 2000, eu tinha muito em comum com Rory: uma adolescente de 16 anos, que gostava de ler e era apaixonada por filmes, prestes a entrar na faculdade de Jornalismo e morava numa casa só de mulheres. Rever as sete primeiras temporadas deu um certo nó na minha cabeça ao perceber que eu tinha, agora, a idade da Lorelai. Ela, responsável por uma adolescente, independente, gerente de uma pousada, aluna de um curso noturno na faculdade, aspirante a ser dona de seu próprio negócio. Eu, uma adulta? Não sei como esses anos passaram tão depressa, mas a Lorelai que me fascinava por ser uma mãe legal, divertida e inteligente, ganhou ainda mais o meu respeito.

Não que elas fossem perfeitas. Ao contrário, a família Gilmore deve bater algum recorde de vezes em que seus membros tomaram decisões erradas, esconderam segredos quando não deveriam, arrependeram-se tarde demais e voltaram a cometer os mesmos deslizes. Exatamente como na vida real.

É fácil resumir a série às referências pop, às piadas rápidas e aos personagens peculiares (que continuo amando), mas foi revendo, em doses homeopáticas, os 153 episódios anteriores que pude relembrar o quão profundamente essa série mergulha nas relações familiares. Ressentimentos, orgulho ferido e incapacidade de comunicação são alguns dos pratos servidos nos jantares de sexta-feira, mas também nas relações estendidas a outros personagens, uma grande família, afinal. No revival, Amy mostra que continua sabendo dosar com sabedoria esses elementos agridoces.

Emily (Kelly Bishop), Lorelai (Lauren Graham) e Rory (Alexis Bledel) no velório de Richard

Emily (Kelly Bishop), Lorelai (Lauren Graham) e Rory (Alexis Bledel) visitam o túmulo de Richard

Atenção: a seguir, o texto pode conter uns leves spoilers

Inverno começa piscando para nós com um diálogo de mil palavras por segundo entre as protagonistas (“Fazia tempo que não fazíamos isso”) e um rápido tour para nos atualizarmos sobre os últimos acontecimentos de Stars Hollow. A estação, no entanto, deixa sua marca ao mostrar lindamente a família lidando com o luto após a morte de Richard (Edward Herrmann), cada uma à sua maneira. E a maneira de Emily (Kelly Bishop, mais incrível do que nunca) e Lorelai lidarem com absolutamente qualquer evento é… brigando.

A despedida do patriarca (que não deixa de ser uma homenagem ao saudoso Herrmann, falecido em 2014) dá início a um novo capítulo na vida de Emily, que agora se sente perdida, a ponto de querer se desfazer de todas as suas coisas e a vestir jeans! Aliás, essa sensação de insegurança é o grande plot da temporada, já que acontece também com Lorelai e Rory, em suas vidas amorosas e profissionais.

A crise de Emily dá o pontapé inicial em Primavera, com mãe e filha procurando terapia juntas (à força, que fique claro). Enquanto isso, Rory, mesmo com um artigo publicado na The New Yorker, continua tendo dificuldades profissionais, e o projeto de livro em que anda trabalhando não sai exatamente como ela imaginava. Gente como a gente, ela precisa apelar para alguns planos alternativos (o que, estranhamente, não a impede de viajar para Londres com certa frequência, uma das inconsistências de Um Ano para Recordar). Perfeitamente plausível, esse arco da instabilidade na carreira acaba um tanto repetitivo e com algumas soluções questionáveis, mas faz a história andar.

Emoções mais fortes nos aguardam em Verão, que nos brinda com uma das sequências mais divertidas do revival, a do musical sobre a cidade, capitaneado pelo sempre impagável Taylor (Michael Winters). Não se engane: a mesma estação também parte nossos corações com alguns graves conflitos familiares envolvendo Lorelai, o que culmina com a dona da Dragonfly Inn tomando uma decisão inesperada, mas bastante compreensível.

Outono tem pelo menos duas cenas capazes de provocar desidratação nos mais sensíveis e consegue a façanha de apresentar os três ex-namorados de Rory (Dean que me perdoe, mas sempre fui #TeamJess. E nunca tive muita paciência para Logan). Aqui, as pontas soltas começam a se amarrar com fluidez e, por mais que você pense que está preparado para as quatro últimas palavras, acredite: o que vem à mente é “E agora?”.

O formato de quatro episódios é redondinho, o roteiro equilibra bem momentos doloridos e engraçados e as participações especiais de boa parte do elenco original (Lane! Michel! Sookie!) ajudam a tornar nosso “retorno” ainda mais aconchegante. É notório que a agenda dos atores interferiu no desenvolvimento de cada história (Melissa McCarthy, por exemplo, só pôde gravar em um dia), mas dois personagens fazem valer cada segundo de tela: Kirk (Sean Gunn) e Paris (Liza Weil).

O namorado de Lulu (Rini Bell), dono do currículo mais variado de toda Connecticut, tem um novo bichinho de estimação, decide empreender no ramo de transportes e apresenta mais uma obra-prima do audiovisual. Stars Hollow lhe deve uma medalha por serviços prestados. Já ex-aluna de Yale ganha um arco mais complexo, com posições interessantes na carreira e na vida pessoal, mas com a personalidade de sempre: uma sequência no banheiro de Chilton é melhor que toda sua participação em How to Get Away With Murder.

E o que dizer de Luke (Scott Patterson), mesma camisa, mesmo boné, mesmo orgulho da Rory, mesma falta de jeito com a Emily, novas implicâncias (nada de wi-fi no Luke’s!), novas preocupações com April (Vanessa Marano) e a melhor-pior declaração de amor da temporada, do jeitinho dele?

Um café e mais episódios, por favor.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas