Ilha Fiscal e Espaço Cultural da Marinha: um passeio interessante mesmo em dia de chuva


Parte do Espaço Cultural da Marinha, a Ilha Fiscal é uma ótima pedida para quem gosta de combinar atrações. Com acesso pela Boulevard Olímpica (e chegada fácil pelas Barcas, na Praça XV, ou pela Avenida Presidente Vargas), várias outras grandes atrações do Centro da cidade estão ali pertinho – como a Igreja da Candelária, o Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) e os museus da Praça Mauá. Como os passeios até lá saem com hora marcada, é fácil se programar.

O “castelinho” da ilha é famoso: além de velho conhecido dos cariocas e por sua importância histórica, ele já apareceu na novela Novo Mundo (que acabou recentemente) – e a Fabiane contou para gente neste post. Procurei por outras produções gravadas lá e encontrei esta pérola que preciso compartilhar com vocês:

Pois é. Lulu Santos encarnou o Charlie e convocou Mariana Ximenes, Fernanda Torres e Cláudia Abreu para serem suas “Panteras” para o clipe de “Já é”, lançamento de 2003. Com a ação toda concentrada na ilha e no prédio, o divertido e um tanto tosco vídeo me lembrou que fazia alguns da minha última visita ao local: uma aula externa de fotografia da faculdade. Puxando pela memória, descobri que conhecia muito pouco do lugar em si. Então abracei a missão de redescobrir esse ponto turístico pouco conhecido por turistas estrangeiros e ainda menos visitado (embora bastante conhecido) pelos próprios cariocas. Descubra com a gente que a visita pode ser bem mais do que parece!

Um pouco de História

Antigamente chamada de Ilha dos Ratos ganhou o atual nome quando o imperador D. Pedro II designado a ser um posto da Guarda Fiscal (a alfândega na época do Império) escolheu o projeto do arquiteto Del Vecchio – um château de estilo gótico-provençal, para um prédio funcional. Após alguns aterros para aumentar a área natural da ilha para 7 mil metros quadrados, começou-se a construção em 1881. O projeto inicial sofreu algumas alterações até que ele adquirisse a atual formação, e sua fama se deve por ter sido o lugar do Último Baile do Império.

De qualquer ângulo, o prédio é lindo. A vista, então…

Em novembro de 1889, o Baile da Ilha Fiscal homenageava alguns oficiais chilenos que tinham negócios com o país e as bodas de prata da Princesa Isabel com o Conde D’Eu – e foi o mais extravagante baile que nosso país já teve. Totalmente reorganizado para receber os ilustres convidados (sua função era basicamente a de um depósito e um escritório, sem luxo ou mesmo quartos para abrigar todos os convidados da realeza), tornou-se símbolo do fim de uma era no país. Uma semana depois do baile, a República seria instaurada. Anos mais tarde, tornou-se o centro de uma das poucas rebeliões do país: a Revolta da Armada, que constava da insatisfação de militares contra a presidência de Marechal Floriano, acabou se servindo da ilha como uma base por sua posição estratégica. Depois de ser bastante afetada pelo conflito, acabou sendo tombada pelo Patrimônio Histórico e protegida de ataques aos símbolos imperialistas (que ocorreram logo após a queda do Império).

Como visitar

É muito simples visitar a ilha, e ainda há a oportunidade de conhecer outras atrações interessantes no Espaço Cultural. Mas, vamos por partes. O ingresso para o passeio pode ser adquirido na bilheteria do museu, que ainda oferece um outro serviço: o passeio marítimo, onde os visitantes podem fazer um passeio de escuna pela Baía de Guanabara. Escolhemos a última saída do dia para visitar a Ilha Fiscal e aproveitamos o tempo livre para explorar os navios enquanto esperávamos o horário, mas você pode fazer na ordem que quiser. Mas vamos falar do monumento mais famoso primeiro.

Vista de dentro do ônibus: “resgate” do Lulu Santos ocorreu ali.

15 minutos antes da hora marcada, nos encontramos com o grupo e seguimos para o ônibus que fez nosso traslado até lá (no dia, o tempo estava bastante nublado e chuvoso; nessas condições, o trajeto até a ilha é feito por terra – pelo molhe construído em 1893 – e não de escuna). *Confesso que me senti meio “Pantera” do clipe, porque passamos pela área onde acontece o resgate final. Ri sozinha, mas disfarcei bem.* Ao desembarcar, já somos recebidos pelo guia responsável por nos apresentar o prédio e as exposições do lugar.

Ali no cantinho tem uma video-instalação com uma “convidada” contando fofocas do Baile. A grande pintura também tem muitos significados, a guia explica todos eles.

O belo prédio não é todo aberto à visitação, mas está bem mais legal do que eu me lembrava. Duas salas foram redecoradas, inspiradas no estilo usado durante o império (apesar nenhum móvel ali ser original da época, a não ser poucos objetos expostos em mesas): uma sala de jantar e uma de visitas, para encontros sociais. Uma vídeo-instalação conta detalhes sobre como foi o baile de um jeito bem original. Não é possível acessar a sala de jantar, mas a vemos através de uma porta de vidro – e dá para ter uma noção do luxo que foi! Passamos pelos salões de dança e subimos uma escada em espiral (um tanto claustrofóbica, diga-se) até o escritório onde funcionava a alfândega. Ali estão os vitrais mais bonitos do prédio, todos originais – e dois deles homenageiam a família imperial, D. Pedro II e a Princesa Isabel.

Detalhe do vitral como retrator do imperador D. Pedro II: por todo o prédio, eles chamam a atenção

De lá, seguimos para a parte das exposições. Duas alas que explicam os projetos sociais e científicos da Marinha brasileira estão em exposição permanente na Ilha Fiscal, e tem muita coisa interessante para ser vista. Nessa hora eu senti um pouco a falta de tempo: por ter muita coisa para ver, às vezes tinha a impressão de que não consegui ver tudo. Há belíssimas fotos de expedições marinhas, maquetes incrivelmente detalhadas e até interativas, mas vimos tudo muito rápido. De fato, o que o público mais gosta de fazer é admirar a bela paisagem do lado de fora e, claro, caprichar nas selfies. Não se acanhe, todo mundo faz várias poses em vários ângulos.

Em um dos espaços das exposições, essa instalação é interativa: apertam-se botões e luzes se acendem informando onde fica cada uma das partes do arquipélago de São Pedro e São Paulo

Uma vista privilegiada do Centro da cidade, da Ponte Rio-Niterói e da Baía de Guanabara, além da curiosidade extra de estar tão perto da pista de pouso do aeroporto Santos Dumont que às vezes é impossível conversar se estivermos à frente do prédio por causa do barulho das turbinas. Essa parte, no caso do meu passeio, ficou devendo um pouco: o dia nublado, frio e chuvoso (ainda era inverno, né?) escondeu muitas das belezas que podíamos ver. Mas nem por isso o passeio foi ruim! A ilha é um desfecho perfeito para uma tarde no Rio – com ou sem chuva.

Navios e Helicóptero Museus

Essa foi a atração que eu achei mais interessante (talvez por causa do tempo, já que a beleza da paisagem ficou um tanto encoberta pelo tempo nublado): estão abertas à visitação algumas embarcações da Marinha transformadas em museu, que mostram com é bem diferente a vida em alto-mar. Um submarino, um contra-torpedeiro, um helicóptero antissubmarino e a Nau do Descobrimento (uma réplica em tamanho natural do que seria uma das naus que vieram na frota de Pedro Álvares Cabral, criada para comemorar os 500 anos do nosso descobrimento) estão disponíveis para visitação.

Despois de descaer pela escotilha, podemos passear por todo o comprimento do submarino. Experiência muito bacana!

Começamos a exploração pelo Submarino Riachuelo, um dos que mais chamam a atenção. Uma aventura à parte, é difícil imaginar ficar meses à bordo de uma embarcação tão pequena e apertada. Pessoas claustrofóbicas devem evitar esse passeio, mas quem for vai se admirar de ver como todos os espaços são bem aproveitados – e mesmo o luxo reservado aos superiores é bem discreto: ali não há espaço para desperdícios. Não consegui escolher qual a parte mais legal do submarino, embora não consiga me imaginar vivendo em um deles! Só de imaginar que ele viaja sob toneladas de água e em direção à guerra… Tô fora!

Vários níveis de visitação nesse grande navio (notavelmente bem mais espaçoso que o submarino)

Dali seguimos para o Contratorpedeiro Bauru, um navio bem maior e com mais espaço para homens e armas. Em uma das salas, há uma exposição contando a história do navio e tem até uma atividade interativa sobre as duas Grandes Guerras. Algumas cenas são representadas por bonecos, como a cozinha, a enfermaria e a sala de comunicação, por exemplo. É bem legal realizar como funciona um navio de verdade. No convés, armas e outros instrumentos de orientação e sinalização estão à disposição do público, que pode interagir com elas.

É ou não impressionante? Muitos desses modelos ainda estão em operação na Marinha brasileira

O Helicóptero Sea King (Rei do Mar) é a primeira das atrações que podem ser visitadas, mas não fomos lá porque estava chovendo quando chegamos. Procuramos abrigo na lanchonete (que tem um preço razoável para lanches pequenos) pouco antes de ir visitar o submarino e o contratorpedeiro, mas não resistimos a visitar esse grandalhão. Com bastante espaço interno para carregar homens e equipamentos de resgate – uma das suas funções reconhecidas pelas Marinhas do mundo todo, pode transportar mísseis e bombas para combater submarinos. Esses são descobertos pela peça, talvez, mais interessante do equipamento: um sonar gigantesco (praticamente uma subestação dentro do helicóptero).

Pode até ter pouca coisa pra ver, mas não dá pra não se sentir meio pirata nessa nau!

Deixamos a Nau do Conhecimento por último, e talvez não tenha sido uma boa ideia. Explico. De longe, o que vemos é uma antiga embarcação de madeira que nos remete aos filmes de pirata, mas lá dentro não tem quase nada. Uma exposição conta em poucas linhas como funciona o navio (quais eram as funções de cada compartimento), mas não há muita representação – como a gente viu nos outros navios-museus – dessas funções. Outra coisa que faltou foi uma legenda em outro idioma: dois turistas alemães (acho que eram alemães) entraram conosco no convés e não demoraram 5 minutos lá porque não havia explicações para eles nem nada atrativo para os olhos que os fizesse ficar. Uma pena. Para não ficar decepcionado, sugiro começar o passeio por lá e terminar no Contra-torpedeiro Bauru enquanto aguardam o momento do embarque para a Ilha Fiscal (ou Passeio Marítimo).

Ao fim, o passeio todo valeu a pena – ainda mais porque o ingresso saiu mais em conta por conta do Projeto Carioquinha, que tem ainda mais coisas legais acontecendo no projeto. Para quem é carioca (ou mora no estado do Rio de Janeiro), é uma boa ficar de olho na programação: tem vários programas gratuitos e outros passeios interessantes a preços com descontos para quem é da Cidade Maravilhosa. Ah, e se você quiser (e tiver uma graninha sobrando), pode alugar o espaço para eventos. Já pensou ter um casamento com requintes de realeza?

Espaço Cultural da Marinha
Acesso pela Boulevard Olímpica, próximo à Pira Olímpica.
Visitação à Ilha Fiscal: de quinta a domingo, às 12h30, 14h ou 15h30 (exceto em casos de mau tempo ou realização de eventos no local). Duração aproximada de 2h, incluindo traslado.
Ingresso: R$30 inteira, R$15 a meia-entrada. Compras somente na bilheteria. Mais informações no site oficial.
Visitação aos navios museus e helicóptero: de terça a domingo (se feriados que caiam na segunda-feira). Ingressos a R$10 inteira e R$5 meia-entrada. (visitação gratuita inclusa na compra dos passeios à Ilha Fiscal ou Passeio Marítimo). Mais informações no site oficial.

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About Geisy Almeida

Formada em Fotografia, fã de boas estórias que sejam bem contadas - não importa se em forma de livro, filme, novela ou bate-papo. Curiosa e interessada em muitos assuntos, às vezes viajo na maionese.