Museu da República: a construção no Rio marcada para sempre na História do Brasil


No charmoso bairro do Catete,  Zona Sul do Rio de Janeiro, existe um prédio construído no século 19 e que hoje é um museu – mais especificamente, o Museu da República. Tantos acontecimentos políticos aconteceram naquelas salas belissimamente decoradas que é meio chocante pensar no quão perto da gente esse marco está: em frente ao prédio tem uma estação do metrô – e, por isso, a poucos minutos do Centro do Rio; e basta atravessar os jardins que é possível chegar ao Aterro do Flamengo.

É fácil chegar e visitar o museu, e se deslumbrar com o lugar. Nossa visita, porém, ocorreu num momento particular: o palácio estava em reforma, e muitos preciosos detalhes e quase todo o terceiro andar estavam fechados para visitação; mas nem por isso ficamos sem ter o que ver lá.

Um pouco de História

O Rio de Janeiro já foi a capital do Brasil – pode conferir no seu livro de História da 6ª série – e o Palácio do Catete (cujo primeiro nome era Palácio de Nova Friburgo, mas também conhecido como Palácio das Águias) era a sede do governo até 1960 – quando o então presidente Juscelino Kubitscheck transferiu-a para Brasília. Construído pelo Barão de Nova Friburgo entre 1858 e 1867, era o símbolo da ostentação da elite cafeicultora e escravocrata da época. Após a morte dos donos, o palácio foi vendido para uma empresa hoteleira e depois comprada (em 1896) pelo governo federal para ser a sede da Presidência da República.

Dos momentos mais marcantes, cito alguns: daqui foram dadas as declarações de guerra contra a Alemanha em 1917 e contra o Eixo em 1942, selando o envolvimento do país nas duas Guerras Mundiais; Chiquinha Gonzaga (1847-1935), primeira mulher compositora e maestrina brasileira, escandalizou a elite ao tocar “Corta Jaca” – um maxixe, música tipicamente popular – nos salões da República; o velório do ex-presidente Afonso Pena foi realizado no palácio; e, provavelmente o acontecimento mais marcante, o suicídio de Getúlio Vargas.

As dependências

Além do prédio principal, há um anexo onde hoje funciona um cinema (com programação cultural e comercial) e um espaço cultural, um jardim repleto de belas árvores, lagos e estátuas de bronze e até uma gruta artificial.

Jardim do Palácio: já vale o passeio

O jardim, aliás, é um espetáculo à parte. De livre acesso à população, tem espaços para se sentar e aproveitar um tarde tranquila e fresquinha. O paisagismo cria espaços de descanso intimistas e belos, perfeitos para uma boa foto de lembrança.

Quando a luz elétrica ainda não era pública, aqui já tinha uma estação geradora!

Há também um espaço interessantíssimo sobre a primeira central elétrica da cidade – e marca as importantes transformações que o Rio sofreu durante esse período.

Visitando o Museu

Pensando em como seria a distribuição da construção como uma casa, é de se pensar na funcionalidade dos andares. Assim, o primeiro andar seria de interação social; o segundo para assuntos mais particulares e reuniões mais formais e o terceiro seria o privativo da família. Assim, as funções acabaram se mantendo mesmo depois de perder sua funcionalidade como “casa de família”.

1° andar

Estátua do índio Ubirajara – ladeando a magnífica entrada

Entrando pela Rua do Catete, já temos uma primeira impressão majestosa: os belos portões de bronze se abrem para um deslumbrante hall, com enormes estátuas de bronze e uma escada imponente, muitos candelabros e mármore. Ali a gente já percebe que esta construção, definitivamente, foi feita para se destacar das demais.

Fragmentos de História em exposição nas paredes do museu

Ainda no primeiro andar fica uma exposição permanente contanto a história da família do Barão de Nova Friburgo e como o palácio passou para a República e se transformou em museu, ocupando várias alas do local.

Salão Ministerial

A sala principal, porém, é o Salão Ministerial. Com enormes pinturas ladeando a sala, era aqui onde os “mandos e desmandos” eram feitos – desde a época do Barão. Ao fundo, a obra “A Pátria”, de Pedro Bruno, retrata a costura da primeira Bandeira Nacional republicana.

2° andar

Aqui estão as salas mais impressionantes: é tanto detalhe nas paredes, nas mobílias, nos tetos… A dica de ouro é: não tenha pressa!

Pena que os tapumes não deixam visualizar a linda claraboia em reforma…

A começar pelas escadas, ladeadas com esculturas de bronze e belíssimos vitrais (em nossa visita, a vista da claraboia do terceiro andar estava bloqueada por conta da reforma), o luxo é a palavra de ordem aqui. Praticamente uma visita em “U”, transitando de um salão para o outro, prepare-se para uma enxurrada de informação a cada nova porta cruzada.

Capela

Desde a Capela – um cômodo bastante comum à época de sua construção – a gente já percebe a preocupação em ostentar. Apesar da grave sobriedade do ambiente, principalmente pelo propósito, é bonito ver. Não deixe de reparar no belo trabalho de pintura do teto, com muito dourado e esculturas de santos.

Salão Francês (ou Salão Azul)

Ligado diretamente à capela, fica o Salão Francês (também chamado Salão Azul), e a gente entende porque é óbvio o nome da nova sala.  Muito espelhos, muitas franjas nas cortinas e janelas, tons pasteis nas paredes, moveis sóbrios e cheios de detalhes… A influência do estilo paladiano francês fica evidente nesta pequena antessala, que é essencialmente feminina – ainda mais se pensarmos que, logo ao lado, temos o Salão Nobre e do outro lado do andar, o salão mais masculino.

Salão Nobre

Como já adiantei, logo em seguida vem o Salão Nobre. Amplo e bastante iluminado, ocupa praticamente toda a fachada do segundo andar. O maravilhoso teto é repleto de pinturas e estuques, e os enormes espelhos das paredes ajudavam a refletir a luz elétrica – ainda um luxo acessível a poucos nos tempos áureos. Bailes e grandes eventos e bailes eram realizados aqui.

Salão Pompeano

Continuando, chegamos ao Salão Pompeano. Baseado nas descobertas artísticas das escavações em Pompeia (a cidade petrificada pela lava do vulcão Vesúvio), pouco teve de ser alterado na passagem de ambiente familiar do barão para a residência presidencial: apenas o teto ganhou as Armas Nacionais e inscrições das quatro datas históricas: Descobrimento, Independência, Abolição da Escravatura e República.

Salão Veneziano

O lustre central é a peça mais bonita do belo Salão Veneziano, embora toda a decoração do teto seja de tirar o fôlego. Usado como uma sala de visitas, foi exatamente aqui que a maestrina Chiquinha Gonzaga escandalizou a sociedade ao executar “Corta-Jaca“, um maxixe – música bastante popular – em um sarau na presença do então presidente. Amiga da primeira-dama, a cartunista Nair de Tefé, fora convidada por ela para a apresentação. A elite, acostumada a saraus ao  estilo europeu, ficou escandalizada com a ousadia da musicista.

Salão Mourisco

Após a parte do andar dedicada aos compromissos sociais, chega-se à parte – por assim dizer – mais masculina do lugar. Entramos no Salão Mourisco. Completamente diferente do estilo geral da casa – mas ainda exuberante -, é um choque para os sentidos. Um ambiente mais reservado e íntimo, usado pelos homens para fumarem e conversarem após os jantares, a pequena sala parece ainda menor devido à quantidade de detalhes e as cores mais sóbrias e escuras usadas nas paredes. Belíssimo, destaco particularmente o douramento nos detalhes e o maravilhoso (e bem mais sóbrio) lustre de bronze e cristal vermelho.

Salão dos Banquetes

Mais à frente, o Salão dos Banquetes é uma sala extremamente formal – onde provavelmente muitos jantares de alianças políticas foram realizados. A riqueza e o luxo continuam a se exibir em pequenos detalhes, como os brasões da República gravados a ouro nas louças de cristal e porcelana do lugar. Atenção especial para as pinturas no teto, onde há uma representação do deus Baco e de temas de alimentação – com representações de alimentos comuns à época do Barão de Nova Friburgo. A varanda do salão fica de frente para os jardins.

3° andar

Desenhado para ser um ambiente privado, o terceiro andar estava praticamente interditado quando da nossa visita. O Museu passa por reforma no momento, mas o já lendário e histórico quarto onde o ex-presidente Getúlio Vargas (1882-1954) cometeu suicídio em 24 de agosto, permaneceu aberto a visitações. Depois de tanta ostentação e riqueza nos outros cômodos do palácio, é muito estranho entrar nesse quarto quase espartano. Poucas mobílias bem sóbrias, decoração simples, paredes quase nuas – até o banheiro reservado é minimalista, com louças brancas e poucos ornamentos. É um tanto chocante, mesmo.

Quarto presidencial – onde Getúlio Vargas se suicidou

A camisa do pijama, ainda suja de sangue e com a marca do tiro na altura do peito, geralmente fica exposta ao público – mas estava substituída por uma foto da peça (talvez por conta da reforma, não havia informação se a mudança era permanente). A carta do suicídio, com a famosa frase “Saio da vida para entrar para a História.” também está lá, próximo à cabeceira da cama.

É um tanto estranho pensar que ali já teve tanta vida e uma morte tão significativa, e a vista da janela mostra o contraste da agitação atual com a imaginação da paz que deveria existir naquele pedaço de Rio de Janeiro quando da construção. Depois de tanto impacto, hora para refletir sobre a vida, o Universo e tudo mais nos belos jardins do Palácio.

Os jardins

Aos fundos do palácio, longe da agitação do dia-a-dia, os jardins são abertos ao público. Há 5 esculturas de bronze representando cada um dos continentes espalhados pelo jardim – além de outras, um belo lago artificial com uma ponte fofa (e ótima para fotos), e até uma gruta artificial – que também rende boas fotos; e não deixe se subir ao topo desta para ter uma visão geral! Tem um acesso fácil por escadas esculpidas na pedra, que levam até a parte de trás – e à exposição sobre eletricidade.

Porém a principal atração é a fonte com chafariz representando o Nascimento da Vênus. Claramente inspirada na fonte principal do Jardim Botânico, no formato e disposição no paisagismo: apesar de menor e mais simples, não é menos bonita.

Chafariz do Nascimento da Vênus

De construções, há um coreto  visitável (havia uma intervenção sobre Clarice Lispector no dia que visitamos, como uma pequena saleta que ela tivesse usado há poucos minutos) e as dependências feitas para acomodar os criados e mordomos que trabalhavam para a presidência – hoje são residência de familiares desses antigos funcionários. Há uma área de convivência também com o Acervo e Reserva Técnica do museu e um cinema, que conta com uma programação cultural e de circuito comercial.

O Palácio na TV e Cinema

Cena do longa “Getúlio”, gravada no Salão Ministerial

Foi exatamente aqui que Getúlio Vargas se matou com um tiro no peito, em seu quarto – um episódio tão marcante de nossa breve existência como país que, lógico, não podia deixar de ser retratada no cinema e na TV.

O Palácio está para sempre conectado a esse fatídico dia 24 de agosto de 1954 e à persona de Vargas, então fica meio impossível retratar a vida do presidente sem falar do local. Hoje o prédio e o jardim são um conjunto arquitetônico tombado e um museu, aberto à visitação – o que torna fácil reconhecer e visitar o set de gravações de minisséries e filmes sobre o histórico episódio.

Agosto (1993, Rede Globo)

Baseado no romance de Rubem Fonseca, tinha José Mayer e Vera Fischer nos papeis principais sob direção de Denise Saraceni e Paulo José. A trama ficcional tinha como pano de fundo os acontecimentos que levaram o então presidente (interpretado por Carlos Bernardo) a cometer suicídio.

Getúlio (2013, Globo Filmes)

O longa tem um tom mais documental, registrando os últimos dias de Getúlio Vargas (interpretado por Tony Ramos) antes de seu suicídio. Focando no isolamento do presidente após as acusações de que estaria envolvido no atentado ao jornalista Carlos Lacerda (Alexandre Borges), passa-se em boa parte dentro do Palácio do Catete.

Chatô (2015, Zoebra Filmes)

Polêmico por conta de sua conturbada produção (que começou em 1995 e só foi lançado mais de 20 anos depois, após vários escândalos sobre possíveis desvios de verba), narra a vida do empresário Assis Chateubriand (interpretado por Marco Ricca) em forma de delírio do próprio. Por sua proximidade com o presidente Getúlio Vargas (interpretado por Paulo Betti), o longa tem cenas gravadas no Palácio.

Curiosidades

  • Na minissérie JK (TV Globo, 2006) os jardins do palácio aparecem ainda na primeira fase, onde o então médico Juscelino Kubitscheck (Wagner Moura) passa a lua-de-mel com a esposa, Sarah (Débora Falabella) e em alguns outros eventos de festa, embora depois de eleito presidente ele tenha transferido a capital do país para a recém-construída Brasília e destituído o status de residência presidencial do Palácio do Catete. Neste caso, porém, o prédio e sua história não estão no foco da ação nem da história de JK.
  • Outra minissérie para a TV da Rede Globo contou a história da maestrina Chiquinha Gonzaga – essa, sim, com um episódio marcante no prédio. A série homônima à artista não podia deixar de registrar o momento histórico do sarau, porém o Palácio não foi usado para a gravação da cena – apenas uma reprodução simbólica do salão feita nos estúdios da emissora.

Reserve uma tarde para conhecer o Museu da República e sua impressionante arquitetura e decoração. Perto do metrô e com boa oferta de ônibus da Zona Sul da cidade, é um pedaço de História do Brasil ao alcance das mãos. Confiram nossa galeria e bom passeio!

Museu da República – Rua do Catete, 153

Visitação: de terça a sexta, das 10h às 17h; sábado e domingo, das 11h às 18h. Ingresso ao museu: R$ 6,00 (inteira). Acesso gratuito ao jardim, todos os dias das 8h às 18h.

No site oficial, encontram-se mais informações sobre a história e programações culturais.

É possível também fazer uma visita virtual.

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About Geisy Almeida

Formada em Fotografia, fã de boas estórias que sejam bem contadas - não importa se em forma de livro, filme, novela ou bate-papo. Curiosa e interessada em muitos assuntos, às vezes viajo na maionese.