Não domina o idioma local? Viaje assim mesmo!


Ano passado, bem depois de montar o roteiro da eurotrip 2016, é que me dei conta de que estava diante de uma situação inédita: só viajei para países em que eu não falava absolutamente nada da língua local. Claro que o inglês salva nessas horas e, pelo menos nas grandes cidades, todo mundo que trabalha com turismo domina o idioma, pontos turísticos são bem sinalizados e a internet é uma grande mão na roda. Até antiinflamatório em holandês eu consegui comprar, sem grandes problemas (a moça na farmácia me ajudou a comprar o remédio certo e me ajudou a descobrir a dose exata para tomar o remédio). Mas é uma experiência interessante: em alguns momentos eu me senti completamente analfabeta, o que é bem estranho e legal ao mesmo tempo.

Na Croácia, encontrei gente que não falava uma palavra de inglês. Um taxista com boa vontade que me salvou de um perrengue em Plitvice fez a tradução para um colega me levar até meu próximo destino. No dia que fui pegar meu ônibus de Split para visitar a Fortaleza de Klis, um dos cenários de Game of Thrones, segui as instruções da atendente do hostel, mas na hora de embarcar descobri que não era aquela linha. Balançar a cabeça negativamente foi a única coisa que o motorista fez. E eu ficaria ali, perdida, se não fosse uma passageira que me ajudou a descobrir o meio de transporte correto. Também dependi de uma usuária de ônibus em Roma, quando descobri, já dentro do coletivo que não dava pra comprar o bilhete com o motorista. Ela me explicou que eu tinha que descer mais adiante e comprar numa maquininha.

Uma situação um pouco mais complexa foi no metrô de Berlim: quando cheguei à plataforma, vi que tinha um carro partindo e me sentei, calmamente, esperando o próximo, quando a locutora dá um aviso completamente indecifrável. Eu lá, imóvel. Até que outras pessoas começam a chegar e a voltar. Pela demora, imaginei que tivesse acontecido algum problema, mas eu não fazia a menor ideia de como sair dali se não fosse de metrô. Um casal de turistas se aproximou e perguntou se eu falava alemão e percebi que eles estavam na mesma situação. Eles tiraram a dúvida com um local, que explicou que não haveria mais serviço naquele dia. Seguimos os alemães e chegamos a um ponto de ônibus em que uma galera estava entrando: ele que levaria até a próxima estação.

Souvenir de viagem: antiinflamatório em holandês

É engraçado perceber também como os turistas brasileiros são conhecidos em qualquer lugar: em Dubrovnik, o caixa do supermercado reconheceu que eu falava português com uma colega e me respondeu com um “Obrigado”, para minha total surpresa, e o garçom do restaurante também identificou logo nosso idioma e tratou de explicar os pormenores de um prato. O que achei simpático lá me deixou desanimada em Buenos Aires, no entanto, há alguns anos: eu estava doida para praticar meu espanhol quando a vendedora começou a falar em portunhol comigo. Que decepção!

Não sei bem como, já servi de “intérprete” para uma alemã (que falava inglês) e uma francesa (que falava espanhol), num quarto de hostel em Barcelona – foi confuso, mas era engraçado quando elas não conseguiam se comunicar entre si e gritavam meu nome. Mas bizarro foi quando entrei num café em Frankfurt e o atendente, indiano, começou a falar algo ininteligível. Devo ter feito uma cara muito confusa porque logo ele percebeu que eu não era uma conterrânea…

Em Paris vivi, talvez meu momento mais “traumático”: anos enferrujada de meu francês bem básico, eu travei. Assim que cheguei, não conseguia pedir um lanche no McDonald’s, misturei um pouco de inglês e, por fim, até um pouco de mímica. E ali aprendi que não importa se eles não gostam que você fale a língua deles: o importante é se comunicar.

É bem verdade que dias depois, em outra lanchonete, já mais à vontade para dizer “eu não entendi” quando alguém falava muito rápido, a caixa bufou de impaciência e até hoje eu não sei o que eu deixei de ganhar na minha refeição. Também fiquei de coração partido quando uma senhorinha me pediu ajuda no mercado e eu não consegui entender o que ela queria. Eu tentei, juro, apontei pra várias coisas, perguntei com as palavras mais genéricas que eu sabia e… nada. Saímos de lá as duas desapontadas, creio.

Quem também aprendeu francês com Lady Marmalade?

Mas se você leu esse texto até aqui pensando “Ah, mas eu não falo nem inglês, então é impossível”, acredite: não é. Em Londres eu conheci um italiano que não falava uma palavra de inglês e estava viajando pela cidade sozinho. Achei bem corajoso. A gente se comunicava por Google Translator e também usava uma linguagem universal: música. Ele conhecia os nossos hits da época, Ai, Se Eu Te Pego e Balada (Tchê Tchê Rere) (aliás, a cara dos gringos quando descobriam que isso não significava nada era impagável).

Outro exemplo para mim de que idioma também se aprende na cara e na coragem foi um guia  de turismo com quem fiz vários passeios na Chapada Diamantina, na Bahia. Ele se desenrolava bem com os turistas estrangeiros e conhecia palavras que eu não tinha escutado em anos de curso. Ele falava do jeito dele, alguém do grupo corrigia e, pronto, ele aprendia mais um pouco. Afinal, não saber é o primeiro passo para aprender, certo?

Minhas habilidades linguísticas estão longe de estar em forma, às vezes escorrego num portunhol sem sentir, esqueço uma palavra, troco preposições. Mas ficava bem orgulhosa de sair falando uma expressão que eles usam – meu sonho é usar “prego!”, a palavra mais versátil do italiano, como os locais (por ora, eu que sou formada em anos de Laura Pausini e Terra Nostra, só consigo identificar uma coisa ou outra, mas falar que é bom, nada). Até tenho vontade de passar uma temporada fora estudando algum outro idioma, mas por enquanto sigo me divertindo do jeito que dá, descobrindo no dia a dia um pouquinho de outras culturas. 🙂

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas