O dia em que visitei Sachsenhausen, um campo de concentração nos arredores de Berlim


Dizem que a gente estuda História para não repetir os mesmos erros. A viagem que fiz à Alemanha, na eurotrip 2016, me lembrava disso constantemente. O capítulo do nazismo, motivo de nenhum orgulho para qualquer cidadão, poderia simplesmente ter sido varrido para debaixo do tapete. Mas o país faz questão de preservar sua memória – ignorar os erros do passado em nada ajuda a cicatrizar feridas e é desrespeitoso com as inúmeras vítimas perseguidas, torturadas e dizimadas no Holocausto, por exemplo.

Depois de dias muito agradáveis em Berlim, decidi conhecer Sachsenhausen, que fica em Oranienburg, não muito longe da capital. Visitar um campo de concentração pode parecer um programa estranho para quem está de férias, mas eu recomendo. É um lugar de muita reflexão, de muito silêncio e de muito respeito pela dor de quem passou por ali.

Não vou mentir, não é fácil: emocionar-se ali é inevitável, e isso nos faz lembrar que se o ser humano é capaz de crueldades tão bárbaras é também dotado de uma habilidade tão bonita e necessária – a empatia. Colocar-se no lugar do outro é algo que  deveríamos colocar em prática com mais frequência, de preferência em situações menos extremas que essa.

Mais de 200 mil pessoas foram confinadas em Sachsenhausen entre 1936 e 1945 – dezenas de milhares não saíram de lá com vida. No início, era um local destinado a prisioneiros políticos, mas logo passou a receber muitos judeus, homossexuais e outros grupos de pessoas declaradas racial ou biologicamente inferiores pelos nazistas. A partir de 1939, com o começo da Segunda Guerra Mundial, cidadãos de países europeus ocupados também foram transportados para o campo.

No início da visita você ganha um pequeno mapa e pode alugar um audioguia – para minha surpresa, havia até opção em português. Achei o item indispensável: ao passo que você vai caminhando por cada instalação, cada cômodo, vai recebendo não só informações como vai ouvindo depoimentos dos sobreviventes. Lembro que um dos momentos que partiram meu coração (foram vários) foi ao ouvir o relato de um homem que contava o sofrimento mais terrível: sentir o cheiro de comida dos oficiais enquanto era obrigado a realizar suas tarefas.

Aquelas pessoas, tratadas como bichos e levadas ao limite da exaustão e da dignidade humana, passavam fome e logo ali, ao lado, havia alimento. Mas não era para elas. Consegue imaginar o que é isso? Outro pedaço da visita que revolta e embrulha o estômago acontece na enfermaria, onde gente, como eu e você, era submetida a experimentos médicos.

Fome, exaustão, doenças e frio estão entre causas comuns de mortes entre os prisioneiros – além, é claro dos assassinatos em massa. Em 1942, foi criada a Estação Z, uma estrutura especialmente pensada para isso, com câmara de gás, câmara de execução e crematório. Na inauguração, 250 judeus foram mortos a tiros.

Muitos objetos, textos e material multimídia ajudam a recontar um pouco os anos de terror que Sachsenhausen testemunhou. Mas entrar em alguns barracões, observar as minúsculas celas e se deparar com um memorial aos mortos é mais poderoso do que qualquer informação racional que seu cérebro possa processar e do que todas as emoções que os filmes que você tenha visto sobre a guerra tenham te provocado um dia.

Se seu roteiro por Berlim permitir, não deixe de fazer a visita – o campo é bastante acessível de transporte público. Basta pegar o trem S1 em direção a Oranienburg, última parada. Na ida, fui caminhando; na volta ,peguei um ônibus que tem ponto quase em frente à entrada principal até a estação.

Sachsenhausen Memorial and Museum
Straße der Nationen 22. D-16515 Oranienburg
Entrada gratuita.
De 15 de março a 14 de outubro: diariamente, entre 8h30 e 18h. De 15 de outubro a 14 de março: diariamente, entre 8h30 e 16h30 (durante o inverno, os museus fecham às segundas, mas outras áreas continuam abertas a visitação)

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas