O que vem por aí nas séries brasileiras “3%” e “Samantha!” na Netflix


Felipe Braga, Natassja Ybarra e Pedro Aguilera conversam sobre a produção latinoamericana da Netflix no Rio2C. Foto: Bruno de Lima/R2C

Primeira série brasileira da Netflix, 3% está prestes a ganhar uma segunda temporada – que estreia dia 27 de abril – que promete ir ainda mais fundo na trajetória de Michele (Bianca Comparato), Fernando (Michel Gomes), Ezequiel (João Miguel) e cia.

O primeiro ano focou bastante no Processo, série de testes e provas a que são submetidos os jovens de 20 anos que determina se eles vão viver num ambiente dominado pela escassez e pela miséria ou se terão a chance de uma vida mais próspera. A estreia de 3% dividiu a crítica, e Pedro Aguilera, criador da atração, diz que levou tudo em consideração.

“Estamos tendo uma segunda oportunidade, estamos vendo o que pode melhorar. Paramos para analisar pontos fracos e pontos fortes. A gente já estava encaminhando para um lugar, porque a gente não queria que a trama se repetisse dramaticamente. A ideia era expandir o universo, mostrar o Maralto, o Continente. Está sendo tão difícil quanto”, contou ele durante painel no Rio2C (antigo RioContentMarket).

Aguilera era um dos convidados do painel sobre o alcance das produções da América Latina na Netflix, que hoje tem um alcance de 190 países. Ao mesmo tempo que afirmava que demorava a cair a ficha de uma distribuição tão ampla, ele dizia que sua preocupação era contar uma história brasileira.

“No nosso caso, por ser uma série futurista, uma distopia, mais abstrata, lidamos com questões mais globais, como distribuição de renda e exclusão. A gente sabe que esse é o principal problema do Brasil, mas também é o principal problema de muitos lugares do mundo. Por isso tantas pessoas se identificaram com o tema”, analisou.

O roteirista e produtor relembrou ainda a trajetória da série, que ganhou popularidade anos atrás no YouTube, depois de ganhar um edital que possibilitou a realização apenas do piloto.

“Foi passando o tempo e nós fomos ganhando experiência, cada um da equipe foi escrevendo e dirigindo outras coisas. Se tivesse feito a série lá atrás, com certeza seria muito pior. A gente foi acrescentando personagens… Não sei como seria hoje a série sem o Ezequiel, por exemplo. Mas tenho muito orgulho daquele piloto, foi ele que abriu o caminho”, disse.

Samantha! é primeira comédia brasileira da Netflix

Criador de Samantha!, que estreia este ano na plataforma de streaming, Felipe Braga deu um aperitivo do que vem por aí no painel do Rio2C. A personagem-título, vivida por Emanuelle Araújo, é uma ex-estrela mirim que viveu seu auge nos anos 80 e que tenta voltar à fama. A trama acompanha a vida familiar de Samantha, que é casada com o ex-jogador de futebol Dodói (Douglas Silva), recém-saído da prisão, e é mãe de  Cindy (Sabrina Nonato) e Brandon (Cauã Gonçalves).

Se o perfil da protagonista lembra alguém, saiba que essa sensação também pode acontecer em outros países bem diferentes do Brasil.

“A gente encontra pra ela dez referências brasileiras, mas se for dar uma olhada no México, na Argentina e até na Polônia teve alguém parecida nos anos 80”, comentou ele, que se propôs o desafio, no entanto, de fazer uma série “que não poderia se passar em nenhum outro lugar”.

“Comédia é um gênero por definição local, mas não existe contradição entre local e global, um alimenta o outro. Para isso, precisamos ter certeza de que estamos trabalhando dentro de uma estrutura narrativa do gênero. Porque, mesmo se o público não entender as piadas locais, vai se sentir confortável com a estrutura que conhece e consegue navegar. É um trabalho duro”, disse.

Braga apresentou no painel um trecho inédito da série, com Emanuelle Araújo, Daniel Furlan (do Choque de Cultura) e uma aparição rápida de Alice Braga. Mas, como costuma acontecer com as produções da Netflix, não entrou em detalhes sobre a trama ou os personagens, por enquanto. No entanto antes mesmo da estreia, o roteirista e produtor já sente a diferença de criar um produto neste novo formato de consumo.

“Somos as primeiras gerações de séries brasileiras em streaming, que geram um novo comportamento de audiência. A maneira com que as pessoas consomem é diferente, e isso cria um padrão de narrativa novo. Antes a gente tinha um episódio por semana, que se fechava nele próprio. Agora se vê uma série inteira em duas noites, isso cria um tipo de pressão diferente. Precisamos de um desenvolvimento de personagem que puxe pro dramático”, explicou.

Experiência no México

A terceira participante da mesa era Natassja Ybarra, showrunner da mexicana Ingobernable, que dividiu um pouco da experiência de uma produção Netflix no país. O fato de ela própria ocupar a função de líder criativa da equipe foi uma grande mudança, segundo ela.

“No México, muitos diretores e produtores são homens, as mulheres escrevem novela, porque pensam que nós entendemos de emoções mas não podemos estar em situações como falar com o ator ou ter contato com a produção. É um pensamento machista”, afirmou.

Ingobernable

E a diversidade na sala de roteiristas também foi um acerto, segundo Natassja.

“A ideia da série é do meu pai. Quando entrei para a equipe e li o roteiro percebi que a protagonista era um mulher que havia sido abusada, que era uma vítima. Temos muitas mulheres na literatura, nas novelas, que  são vítimas das circunstâncias, que não estão criando as suas histórias. Eu me cerquei de pessoas que sabem mais sobre feminismo do que eu e estou aprendendo, estou me desconstruindo”, afirmou.

A roteirista e produtora também percebeu logo a diferença de linguagem para as telenovelas, produtos que o México exporta para todo o mundo com sucesso, inclusive no Brasil. “As séries têm menos repetição. Esse é um recurso da TV comercial, porque as pessoas não estão vendo, mas escutando. Se tiver muita exposição na série, fica cansativo, o ritmo é mais rápido, é quase como um filme longo”, explicou.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas