Os novos “Power Rangers” acertam o tom sem deixar de lado a nostalgia


Assistindo a Power Rangers mesmo ainda enquanto criança, quando a franquia de heróis virou uma febre lá nos anos de 1990, já percebíamos que algumas coisas não eram exatamente o que nossas mentes infantis imaginavam. Não que isso importasse muito na diversão ou na vontade de assistir, mas sabíamos que o excesso de cores e os vilões eram meio cafonas e que as pessoas nos trajes de heróis não eram as mesmas que víamos “morfar”. Inclua aí a sensação estranha de que a pessoa dentro do collant amarelo mais parecia um homem (é porque era mesmo!).

É claro, só depois de mais velhos e com acesso a internet que a maioria de nós descobriu que o programa era um quebra-cabeças que misturava cenas de ação do Super Sentai original do Japão com cenas de atores americanos, para tornar o produto mais “acessível” para o público ocidental. Essa informação, no entanto, não tem nenhum impacto na memória afetiva de quem cresceu assistindo ou da molecada que ainda acompanha as aventuras dos heróis coloridos.

Novos Rangers, uniformes novos!

Entretanto, é provavelmente por causa dos fãs mais velhos, fator somado à popularidade dos heróis nas telonas e ao sucesso da franquia de robôs gigantes Transformers, que o revival dos Rangers na tela grande se tornou uma possibilidade. A grande questão seria acertar o tom, já que, além de falar com o grande público, o novo filme teria que agradar aos fãs, muitos deles já adultos e com critérios de qualidade mais rígidos. Manter o tom juvenil sem ficar caricato e ainda causar nostalgia era o desafio. Descomplicar e retornar à primeira e mais simples versão da equipe foi o primeiro passo.

Assim, Jason, Zack, Billy, Trini e Kimberly (cujos nomes só sei de cor necessariamente nesta ordem graças ao hit de Sandy & Junior) mal se conhecem apesar de morarem na pequena Alameda dos Anjos. Mas, por circunstâncias diversas, acabam juntos em uma pedreira onde encontram pedras mágicas de diferentes cores. Depois de descobrirem que foram afetados pelos artefatos, os jovens se reúnem em busca de uma explicação. Eles descobrem a existência de Zordon e da vilã Rita Repulsa, a quem precisam derrotar, já que agora são os portadores dos poderes dos cristais, os novos Power Rangers.

Elizabeth Banks se divertindo como Rita Repulsa

Sim, é a mesma historinha da TV, simples e direta, bem contra o mal. A diferença aqui é que o filme se preocupa em apresentar os protagonistas e criar uma conexão entre eles. São cinco “histórias de origem” a serem trabalhadas em apenas duas horas de projeção, além da ameaça principal – logo, não espere dilemas muito complexos ou um grande aprofundamento. No geral, os novos Ranges têm os mesmos problemas dos adolescentes de hoje: aceitação, preocupação com o futuro, conflitos com os pais. E alguns desses temas , como assumir responsabilidades de adultos e orientação sexual são apenas citados, mas não explorados. Mesmo assim, já é muito mais do que a série de TV entregava.

Além disso, Jason (Dacre Montgomery), Zack (Ludi Lin), Billy (RJ Cyler), Trini (Becky G) e Kimberly (Naomi Scott), também precisam conhecer uns aos outros e criar uma amizade antes de poderem formar uma equipe. Entram aqui momentos de referência a clássicos de temática adolescente como Clube dos Cinco, Conta Comigo e filmes mais recentes como Poder Sem Limites e Projeto Almanaque (este último do mesmo diretor de Power Rangers, Dean Israelite). Uma boa escolha, especialmente porque o grupo de atores funciona bem junto, embora alguns se saiam melhores do que outros. Montgomery, Ranger Vermelho e suposto líder da equipe é o menos expressivo, enquanto Cyler, intérprete do Azul, rouba a cena.

Clube dos Cinco: referências e fan services não faltam

Essa escolha de focar nos personagens e deixar a batalha para mais tarde pode não soar tão bem para quem busca muita ação, inclusive alguns fãs. O grupo demora bastante para assumir os uniformes – que agora na verdade são armaduras – bem como para se engajar em lutas, com ou sem os figurinos coloridos. Porém, quando finalmente o fazem, sobram referências, nostalgia e fan service para todo lado.

Os efeitos especiais não são incríveis, mas funcionam. Outra escorregadela, aos olhos de alguns, pode ser um ponto de virada mais dramático perdido no meio do bem-humorado roteiro. Já a direção de arte atualiza o visual para 2017 mantendo o colorido mas sem o alto nível de cafonice. Vamos ver se o novo look sobrevive ao teste do tempo (provavelmente não).

No elenco “adulto”, Bryan Cranston dá vida a Zordon, em uma interpretação que não exige muito dele, com auxílio de uma atualização tecnológica interessante da cabeça gigante, que antes flutuava em um tubo. Enquanto isso, Elizabeth Banks parece se divertir – e também diverte – com a malvadeza pura e o visual extravagante de Rita Repulsa.

Bryan Cranston como Zordon

Divertido, visualmente interessante e mais focado nos personagens que na ação, o novo Power Rangers não é um filme perfeito, muito menos traz dilemas adolescentes ou heroicos complexos, mas nunca pretendeu trazer. Porém acerta no tom, tem coerência visual, é bem produzido, e tem um elenco entrosado, além de falar tanto com fãs quanto com o grande público. Se já era um fenômeno, quando eram apenas uma equipe de heróis coloridos com design caricato e tramas rasas e cheia de falhas, imagina agora!

P.S.: Há uma cena durante os créditos!

Resenha originalmente publicada no blog Ah! E por falar nisso

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About Fabiane Bastos

Jornalista especializada em cultura, viciada em filmes, séries e livros não necessariamente nesta ordem. Adoraria poder visitar os mundos que só conhecemos pelas páginas e telas, ou chegar o mais próximo disso possível!