Percorrendo o Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana


Acredite se quiser, tem muito “carioca da gema” que não conhece toda a cidade. A zona portuária é uma das áreas que está sendo descoberta por moradores e turistas após o projeto de revitalização da área. Não faltam projetos e atrações para levar o pessoal para a área. Nós embarcamos no tour do Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana, que percorre marcos da história dos africanos trazidos para o Brasil. O passeio é feito todo a pé, às terças em horários alternados. É gratuito e conta com um guia voluntário do IPN (Instituto de Pesquisa e Memória dos Pretos Novos,).

Largo de São Francisco da Prainha – grupos se preparando para partir

O ponto de encontro para o início da caminhada foi o largo de São Francisco da Prainha, em frente ao tradicional Angu do Gomes. Pode-se dizer que a aula de história já começa ali, pois a praça abriga a estátua de Mercedes Baptista, a primeira bailarina negra do corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Também descobrimos que, assim como a igreja homônima que fica ali pertinho, o largo costumava ficar à beira mar – por isso o nome “Prainha”. Você já viu esse ponto carioca aqui no blog, quando seguimos o roteiro do clipe de We just dont care (P.D.A) de John Legend.

Curiosos, turistas, estudantes de história e muitos, muitos alunos do ensino fundamental e médio formaram uma “multidão” de cerca de 150 pessoas dispostas as percorrer as ruelas do circuito em plena tarde de terça-feira. A solução foi dividir a galera em dois grupos, caminhando com alguns minutos de diferença, para não tumultuar a experiência. E o primeiro ponto fica apenas à um quarteirão de distância…

Pedra do Sal

Degraus esculpidos em uma enorme rocha pelos escravos que faziam o caminho várias vezes ao dia carregando nas costas até 70kg de mercadoria que chegavam ao país via mar. Um destes produtos, é claro, era o sal que o Brasil era proibido de produzir por Portugal (que queria vender sua produção para os colonos, então obrigados a comprar). Nos raros momentos livres que esses escravos tinham, a pedra também servia de ponto de encontro, resistência e recreação – esta última feita majoritariamente com música. Essa, aliás, é uma tradição que continua até os dias de hoje: toda segunda e sexta-feira à noite tem Roda de Samba na Pedra do Sal.

Escadarias e grafite na Pedra do Sal

Para quem só puder passar lá de dia, além da curiosa escadaria que rende fotos interessantes de diversos ângulos, os grafites são o destaque. As figuras mudam de tempos em tempos e tem motivos culturais e sociais, mensagens e são deslumbrantes.

Subindo a pedra, seguimos pela rua Jogo da Bola para o Morro da Conceição. A pausa para fotos por ali fica no mirante-praça em frente ao ateliê Ventos do Norte. O Morro é outra particularidade carioca que merece uma visita, mas isto vai ficar para outro post. Por hora, acompanhamos o grupo caminhando pelas ruas de casinhas charmosas e atmosfera de cidade pequena que a região tem. Passamos pelo Observatório da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e pela Ladeira Pedro Antônio, um passeio com cara de mirante, até chegarmos ao ponto mais alto do…

Jardim Suspenso do Valongo

Charmoso e quase desconhecido, pouca gente visita o Jardim Suspenso do Valongo.

Por segurança, apenas a entrada lateral do jardim fica aberta permanentemente. Projetado pelo arquiteto-paisagista Luis Rey e construído em 1906 nos moldes dos jardins franceses. Fazia parte do plano urbanístico de Pereira Passos para “modernizar” a zona portuária. Antes, a área abrigava o mercado de escravos recém-chegados e toda a região do circuito era conhecida como pequena África. A modernização também tinha o intuito de apagar as marcas da escravidão e afastar a população pobre e negra da região; por isso, o Jardim faz parte do circuito.

Abandonado por muito tempo, o jardim foi reaberto ao público em 2012 após as obras de revitalização do Porto Maravilha. Plantas diversas, bancos, estátuas romanas e até uma cachoeira artificial criam uma charmosa área de descanso com vista para a cidade e para o antigo Largo do Depósito, as “lojas” onde os negros eram vendidos. Minerva, Mercúrio, Ceres e Marte são os deuses representados nas estátuas que ornamentam o espaço – réplicas das originais que já estavam lá quando o espaço foi criado e que antes ficavam no Cais da Imperatriz. Atualmente, as imagens verdadeiras estão protegidas de vândalos no Palácio da Cidade, em Botafogo.

O Jardim visto de cima, da rua, por dentro e sua vista para a cidade!

Caso esteja curioso, o edifício amarelo bem no meio do jardim era a casa da guarda, presente já no projeto original. Mais abaixo, de frente para a Rua Camerino (para onde o jardim está voltado), os antigos banheiros públicos foram restaurados pela prefeitura e agora servem de sede para um centro cultural: a Casa da Tia Ciata, figura importante para o surgimento do Samba.

Mais alguns passos e já estaríamos na próxima parada oficial do passeio, mas antes uma paradinha fora do roteiro.

Docas Dom Pedro II / Docas Nacional

Nas escadarias do Sítio Arqueológico do Cais do Valongo, com o armazém Docas Dom Pedro II ao fundo

Projetada pelo engenheiro negro André Rebouças em 1871, foi construída sem a utilização de mão de obra escrava. Atualmente é o Galpão da Ação Cidadania, e nem sempre está aberto à visitação – mas demos sorte e pudemos dar uma olhada no prédio por dentro. Mas não fique chateado se não estiver acessível, só a visão da fachada do prédio já é uma atração e tanto que pode ser vista perfeitamente do outro lado da rua onde fica o…

Cais do Valongo / Cais da Imperatriz

Maior porto de escravos do país, recebeu mais de 500 mil africanos, entre 1811 e 1831. Com o fim do tráfico perdeu sua função, e em 1843 foi reformulado para receber a Imperatriz Teresa Cristina Maria de Bourbon, esposa de Dom Pedro II – por isso o cais tem dois nomes. Mas a construção para a imperatriz também foi aterrada em 1911 durante as obras de Pereira Passos para revitalização da área.

As pedras grandes são do Cais do Valongo, as menores do Cais da Imperatriz. Ao fundo, o Obelisco e o Hotel Barão de Tefé

Por muito tempo apenas o Obelisco em homenagem à chegada de Teresa Cristina estava visível para quem passava pela região, mas as obras do Porto Maravilha revelaram ambas construções. Agora é possível ver as grandes pedras do cais original, por baixo dos paralelepípedos da atualização de 1843. O ponto é outra parada perfeita para uma pequena aula de história e para descansar por alguns minutos nas escadarias, que levam às ruínas abaixo do nível da rua, antes de seguir para a próxima parada. Descendo a Rua Sacadura Cabral, passando pela Praça da Harmonia, onde pegamos a Rua Pedro Ernesto até o…

Cemitério dos Pretos Novos

Descoberto em 1996, quando os donos de uma residência resolveram fazer uma reforma, era o único cemitério de escravos recém-chegados ao Rio. Os negros que desembarcavam muito doentes e morriam nos barracões do Valongo antes de serem vendidos, eram sepultados de forma precária no espaço. Indícios mostram que cerca de 6.000 pessoas foram sepultadas ali entre 1824 e 1830. Também foram encontrados no cemitério artefatos do cotidiano e uso diário, que revelam detalhes da vida dos escravos na época.

Escavações e muita história escondidas em uma residência modesta.

Os visitantes podem observar as escavações ainda em curso, além de alguns dos artefatos e um vídeo que conta um pouco da história do cemitério e da descoberta arqueológica. Como estávamos em um dia de sorte, os arqueólogos responsáveis pela pesquisa estavam por lá, deram uma aulinha especial e responderam as nossas perguntas. Infelizmente esta também foi a parte mais tumultuada do passeio, já que os dois grupos se encontraram na pequena casa, que não comporta 150 pessoas ao mesmo tempo. Nada que paciência e boa vontade não resolvam. Demorou um pouquinho, mas todo mundo conseguiu ver tudo.

Também é possível visitar todos estes pontos por conta própria. Escolher seus favoritos, fazer seu próprio ritmo e escapar da multidão. Confira o mapa ao fim deste post para saber a localização de cada um deles e até a rota que seguimos no dia. Lembre-se de usar calçados confortáveis, chapéu e protetor solar, além de levar uma garrafa d’água; você está pronto para a jornada.

Na fachada do IPN, material de pesquisa e fotografias de figuras históricas e achados em exposição.

A casa também abriga o Instituto de Pesquisa e Memória dos Pretos Novos, o IPN. Criado em 13 de maio de 2005, tem o propósito de propor reflexões e estimular projetos educativos e de pesquisa. O instituto é mantido principalmente pelo casal Guimarães, que descobriu o sítio e pelo trabalho de voluntários. Doações sempre são bem vindas.

O cemitério é o ponto final do circuito, percorrido sem pressa em cerca de duas horas, com direito a explicações bastante completas dos guias e pausas para as fotos. Como tudo é feito a pé, e o percurso inclui ladeiras e escadarias, não é uma boa pedida para quem tem grandes dificuldades de locomoção. Mas o ritmo é tranquilo e confortável para todas as faixas etárias.

Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana
Horários pré-definidos: 9h ou 14h (terças-feiras, confira as datas)
Mais informações: (21) 2516-7089, das 10h às 16h30, de terça a sexta-feira
Inscrições individuais ou para grupos.
Instituto dos Pretos Novos

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About Fabiane Bastos

Jornalista especializada em cultura, viciada em filmes, séries e livros não necessariamente nesta ordem. Adoraria poder visitar os mundos que só conhecemos pelas páginas e telas, ou chegar o mais próximo disso possível!

  • Amanda Saviano

    Que interessante, não sabia deste tour nem desta área da cidade! Não sou carioca, mas quero muito ir!

    • Fabiane Bastos

      Vem amanda, vc vai amar!

  • Edson Amorina Jr

    Fabiane, achei as fotos maravilhosas. E que dica de roteiro boa, gostei bastante. não conhecia, mas fica a boa dica para quem for o RJ.

    • Fabiane Bastos

      Quem estiver só de passagem pela cidade também pode aproveitar! 😉

  • Ana Paula Coutinho

    Só lugar bacana! Adorei as dicas, não conhecia os lugares.

  • Fabiane Bastos

    Oba! Depois nos conte como foi sua experiência Flavia.
    Abs