Planejando a viagem perfeita (ou a pior maneira de arruinar suas férias)


Outro dia vi num desses grupos do Facebook dedicados a viajantes a publicação de uma menina que compartilhou seu roteiro com uma amiga e ouviu várias críticas ao planejamento dela. A tal amiga disse que tal cidade era impossível de conhecer em tantos dias, que era melhor nem ir. Peraí, melhor nem ir? Concordo em não querer fazer maratona, mas quem é que vai determinar qual é o melhor jeito de você viajar? A meu ver, nem agências, nem amigos, nem mesmo seus companheiros de jornada – e me aventurar sozinha por aí me ajudou a entender isso.

Toda vez que alguém faz uma consulta do tipo “vocês acham que está bom esse roteiro?” surgem dezenas de sugestões que, muitas vezes, modificam o itinerário original quase por completo. Quase sempre é com a melhor das intenções, mas isso só prova meu ponto: viagem é uma escolha muito pessoal. Se a gente se deixar levar por todos os guias, todas as sugestões de conhecidos, todas as dicas imperdíveis que a gente lê nos blogs, lascou!

Ouvir as dicas dos amigos pode te dar um leque de opções, mas a viagem deles pode – e deve – ser bem diferente da sua. Aquele restaurante “imperdível” pode não estar no seu orçamento, não valer o deslocamento até o outro lado da cidade ou simplesmente ter ficado para aquele dia em que você queria fazer outro programa. Aquela cidade “chata”, que foi desaconselhada veementemente, pode apenas não fazer o perfil de outra pessoa – mas pode ser o ponto alto das suas férias. Madri não me empolgou tanto, mas conheço várias pessoas que curtiram a capital espanhola mais do que Barcelona, por exemplo. Vivências diferentes, e está tudo bem.

Eu procuro essas referências todas, listo tudo que quero ver, fazer, conhecer, mas depois vou filtrando. E, admito, tentando desapegar. Porque planejar aquela viagem perfeita às vezes pode virar uma pegadinha. Já contei aqui que sou do tipo que gosta de delinear as coisas bem antes – isso me dá uma sensação de segurança, mesmo que alguns imprevistos baguncem as coisas no meio do caminho. Acontece que viajar te força a ser mais flexível, e acho isso ótimo.

Então aprendi que aquela viagem ideal que a gente tem na cabeça antes de entrar no carro, no barco, no trem, no ônibus, no avião ou o meio de transporte que for nunca vai ser igual à nossa experiência de verdade. Às vezes vale a pena arriscar ir a aquele lugar que não é tão famoso mas que você quer muito conhecer porque se apaixonou por uma foto. Ronda entrou no meu roteiro da Andaluzia assim. Não me arrependo nem um pouco, e a cidade virou meu xodozinho da viagem.

Também já me deixei levar pelo impulso e me arrependi um tiquinho. Foi o caso de Liverpool, terra dos Beatles, que também dava para encaixar numa viagem a Londres em um bate-volta de um dia. Sim, foi um passeio legal e realmente a logística funcionou, mas saí de lá querendo ter ficado mais para ver o que mais a cidade tem para oferecer. Hoje eu faria um esquema diferente, pelo menos pernoitando lá.

Quando começo minha fase de pesquisa, vou devorando tudo que encontro pela frente e quero porque quero ver tudo que tenho direito. Aprendi na marra que não dá e que uma viagem não se mede pelo número de lugares que você visita. O importante é estar por inteiro num lugar, nem que seja fazendo nada numa praia (o que, vejam só, já considerei “desperdício” de tempo num planejamento, já que moro no Rio de Janeiro). Isso é um alívio enorme.

Também tento não entrar na neura de só fazer programas diferentões. Não há nada de errado em visitar pontos turísticos famosos. Se der para sentir o gostinho da cidade em programas originais e fazer passeios que os locais amam, ótimo. Nada deve ser obrigação. Nem mesmo turistar e badalar o tempo todo – sim, eu também durmo na viagem e, olha, faz um bem danado!

Mesma coisa a dica de se hospedar num bairro descolado só pelo hype – estar perto de tudo, numa região agradável e com facilidade de transporte público ainda é prioridade para mim. Mas já caí nessa de querer ficar em uma vizinhança mais charmosa, segundo recomendações, e depender de táxi para tudo. Não mais.

Hoje eu tento cada vez mais abrir mão de um roteiro perfeito e me apaixonar pela viagem possível, nos dias que a gente tem disponíveis, no ritmo que o corpo aguenta, com o dinheiro que tem à mão. O destino é  importante sim, mas a jornada também.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas