Por que viajar sozinha?


Parque do Retiro, Madri

Parque do Retiro, Madri

Parece que foi ontem, mas parece que foi há uma vida inteira. Lembro bem da primeira vez, em 2012. Um conflito de agendas e duas opções: ficar em casa ou ir sozinha. Então eu tinha a chance de ir à Europa pela primeira vez e abriria mão disso por falta de companhia? Sim, eu era aquela pessoa que não gostava de almoçar só e que durante muitos anos nem cogitava ir ao cinema se não tivesse alguém do lado… Só que eu era também a pessoa que queria conhecer o mundo e que estava cansada de adiar uma oportunidade na vida.

Cachoeira da Fumaça, na Chapada Diamantina

Cachoeira da Fumaça, na Chapada Diamantina

Não esqueço o orgulhinho de ter conseguido, da sensação de liberdade. Eu podia fazer o que quisesse. Quando se viaja em grupo, sempre vai ter alguém nem tão interessado em ver aquela exposição, em subir aquela torre, e isso pode ser extremamente cansativo. E muitas vezes eu quero trocar um ponto turístico “obrigatório” por umas horas relaxando num parque num dia de sol. Abrir mão de um restaurante “incrível” por uma pizza sentada na praça, assistindo à apresentação de algum músico de rua. Deixar de conhecer as lojas mais badaladas e descobrir as feirinhas populares. Gastar os minutos que forem necessários para admirar aquele quadro que chamou minha atenção no museu.

Sou uma pessoa tímida e conversar com estranhos, para mim, não é fácil. Mas é incrível como as coisas fluem na estrada, quando você encontra viajantes com o mesmo perfil ou mesmo grupos dispostos a conhecer gente. E aí quando você vê já está se divertindo com duas senhorinhas brasileiras no Madame Tussauds, tomando uma cerveja com uma israelense na Andaluzia, conversando com um italiano que não falava inglês pelo Google Tradutor em Londres, caçando cenários de Game of Thrones com uma paulista na Croácia, trocando dicas de viagem e impressões sobre o Lula com um coreano em Florença, servindo de intérprete entre uma alemã e uma francesa em Barcelona.

Tive que aprender a trocar baladas por um livro, música ou Netflix. Trouxe de viagem algumas fotos borradas, com cabelo na cara, com chão mais torto que a Torre de Pisa e com monumentos completamente fora de quadro, mas também lembranças de gente muito prestativa que me ajudou quando eu estava perdida, quando não sabia usar a lavanderia, quando não tinha mais ônibus para seguir viagem e quando um bêbado no bar se tornou inconveniente. Diminuí meu preconceito com as selfies e aumentei meu apreço pelas pequenas gentilezas.

Split, na Croácia, vista da torre

Split, na Croácia, vista da torre

Planejar toda a logística de um mochilão por várias cidades, por exemplo, dá um trabalhão. Nem tudo dá certo e, além de não poder culpar ninguém, você é quem vai ter que resolver tudo. Este ano perdi um ônibus noturno que ia de Amsterdã a Frankfurt e passei alguns minutos sem saber o que fazer numa estação sozinha, de madrugada. Mas foi aí que conheci uma argentina sem lugar para ficar, que me fez companhia e sugeriu um hostel-trem ali perto, onde tirei algumas horas de sono até resolver a próxima passagem.

Se teve uma coisa que aprendi nos vários perrengues que passei é que tudo tem jeito. Logo eu, a pessoa que normalmente reclamaria que tudo acontece comigo e blábláblá e mimimi. Mas eu dei conta. E me surpreendi ao notar que estava automaticamente minimizando os contratempos e conseguindo focar nos momentos bons dessas viagens, que não foram poucos.

Viajar sozinha marcou uma nova etapa na minha vida: foi assim que fui à Europa duas vezes e conheci um paraíso chamado Chapada Diamantina, na Bahia. E isso não significa que eu tenha criado aversão por pessoas, muito pelo contrário. Até hoje rio das lembranças de uma trilha interminável em Ilha Grande com amigos queridos, da bronca em inglês que levei junto com outras amigas animadas em Paraty, das fofocas em grupo em pleno Atacama e das filas da Comic Con Experience, divertidas graças à companhia incomparável das outras duas autoras deste blog. E cogito embarcar acompanhada nas próximas férias.

Estar só num lugar desconhecido apenas mudou minha experiência comigo. Encarar uma viagem de férias completamente sozinha significava encarar a mim mesma por um mês inteirinho. Mas eu sou uma boa companhia, afinal.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas