Crítica: Kingsman – O Círculo Dourado


Precisei de uma pausa para apreciar a genialidade desse filme: muito além do puro entretenimento de filmes de ação, Kingsman – O Círculo Dourado (Kingsman – The Golden Circle, 2017) é a sequência de Kingsman – O Serviço Secreto, sucesso de 2015, e consegue ser ainda mais interessante que seu antecessor.  As críticas ao comportamento social e ao próprio gênero de filme de ação/espião estão ainda mais ácidas e divertidas, e as mais de 2h de filme passam sem que o espectador se canse – e ainda termine querendo mais.

Um aviso: como o roteiro segue com as consequências diretas dos acontecimentos do primeiro longa, essa resenha pode conter alguns spoilers (mas acho difícil encontrar alguma outra que seja 100% spoiler free). Prometo fazer o possível para não entregar demais.

Depois de salvar o mundo da destruição pelo plano maligno de Valentine (Samuel L. Jackson), Egsy (Taron Egerton) assumiu o posto de Galahad – que era de Harry (Colin Firth) – na Kingsman e segue a rotina de um espião da agência. O que ele não esperava era ser atacado por um ex-recruta, Charlie (Edward Holcroft). Ele acreditava que o rapaz tinha morrido na festa de Valentine, mas ele estava muito vivo – e com um braço mecânico, ainda por cima! Depois de uma alucinante luta para salvar a própria pele dentro de um táxi, Egsy consegue escapar e ainda chegar a um local seguro no Hyde Park. O que ninguém esperava é que o braço mecânico perdido no carro fosse capaz de hackear o sistema da Kingsman. Um desastre está para acontecer: com base nos endereços encontrados ali, todas as casas de todos os agentes da Kingsman, inclusive a sede, são destruídos por mísseis teleguiados.

Egsy se salva por simplesmente não estar em casa no momento do acidente, mas nenhum outro agente escapa – nem mesmo Arthur (Michael Gambon, substituindo Michael Caine no cargo) e Roxy (Sofie Cookson), a Lancelot. Arrasado, Egsy encontra ajuda no único outro sobrevivente do massacre: Merlin (Mark Strong, excelente). Juntos, eles precisam por em ação o protocolo final. A ajuda vem do jeito que eles menos esperavam: uma agência irmã, nos Estados Unidos, seria a última saída. O contato, porém, não foi muito amigável a princípio.

A Statesman é a agência de inteligência secreta americana, e se esconde sob a fachada de uma destilaria. Passada a desconfiança inicial (que inclui uma surreal e divertida sequência de “reconhecimento” à americana, do tipo “atire primeiro, pergunte depois”), ambas agências passam a trabalhar juntas com a pouca informação que Roxy conseguiu buscar: o palpite da falecida agente era de que o Círculo Dourado, uma organização de tráfico de drogas, estaria de alguma forma envolvida com o estado atual de Charlie – e, consequentemente, com o desastre que veio acontecer depois. Logo a suspeita se comprova acertada.

Poppy (Juliane Moore, deliciosamente macabra) se revela como a chefe da organização de um jeito bastante inusitado: num anúncio na TV, ela avisa à população que contaminou suas drogas propositalmente com um vírus e o único antídoto está sob sua guarda. O que ela espera em troca da cura é que o presidente dos Estados Unidos descriminalize o uso de narcóticos. Assim que o decreto estiver assinado, ela liberaria o antídoto para todos os países atingidos (o que seria praticamente o mundo todo). Mais uma vez cabe a Egsy agir para salvar o mundo de um maluco megalomaníaco, e dessa vez ele tem motivos mais pessoais ainda para parar Poppy.

Como prometido, tentei segurar as melhores partes para deixar surpresas para quem for ao cinema – quanto ao personagem de Colin Firth, os posteres entregam um pouquinho do que acontece porém não vou estragar a forma como ele surge na trama. O roteiro é um primor: não há “barrigas” ou excessos, alternância de ritmo com cenas de ação e pura emoção, toneladas de sarcasmo para todos os lados (do american way of life ao cavalheirismo inglês, passando pelas relações amorosas nos dias atuais e clichês dos gêneros cinematográficos, não há perdão para ninguém) e nenhuma ponta solta. São várias as cenas memoráveis, principalmente as que têm participação especial de Elton John (essa nem foi spoiler, porque o nome dele está no cartaz!) e as que se passam na Casa Branca. Aqui vale uma dica: esteja atento ao noticiário internacional e conseguirá entender as piadas internas mais escrachadas e bem executadas que eu já vi na vida. Um adendo: Pedro Pascal (o eterno Oberyn, de Game of Thrones) faz uma participação muito maior do que eu esperava – e é hilário ver como um não-americano absorve e se orgulha das “americanices”.

Há também algumas coisas um tanto questionáveis, como a sequência na tenda do show no Festival de Glastonbury, por exemplo. Mas se lembrarmos que esse é um filme que tira sarro das coisas justamente exagerando e carregando nas tintas, percebemos que o grotesco ali foi usado para incomodar mesmo – para nos fazer se perguntar “nossa, mas era mesmo necessário?” não só ali, naquele momento, mas em todos os outros em que aparecem em outros filmes. Simplesmente genial.

A sessão a que assistimos foi em 3D, porém acredito que não tenha sido necessário. Quem já viu o primeiro longa, sabe que a ação alucinante é uma marca registrada da franquia e não precisa de efeito nenhum além do que já está em cena. A franquia, aliás, que promete ser expandida – e o público agradece. Pessoalmente eu não conheço os quadrinhos que inspiraram essa maravilha cinematográfica, mas acredito que o diretor Matthew Vaughn tenha feito um bom trabalho ao traduzir novamente os quadrinhos para a telona. Vaughn também merece créditos por conseguir entregar um trabalho tão denso com tanto bom humor; um produto que vai além do entretenimento por si só – e que tampouco falha em ser só entretenimento. Aproveitando o tom do filme, me arrisco a um trocadilho super clichê: um tiro certeiro, em todos os alvos.

Crítica originalmente publicada no blog DVD, Sofá e pipoca

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About Geisy Almeida

Formada em Fotografia, fã de boas estórias que sejam bem contadas - não importa se em forma de livro, filme, novela ou bate-papo. Curiosa e interessada em muitos assuntos, às vezes viajo na maionese.