Revisitando um destino de viagem (ou me encantando com Buenos Aires pela segunda vez)


 

A sensação é certeira, toda santa vez que olho o mapa-múndi, ou que assisto a um programa de viagens, que ouço relatos de quem já explorou algum lugar interessante: desejo de conhecer o novo e a agonia pelo tanto que há para se ver no mundo. A cada plano, portanto, a prioridade é desbravar o desconhecido. Faz todo o sentido. Fato é que, pelo menos no meu modo de viajar, com tempo contado numa mão e o dinheiro na outra, os planos de revisitar um destino vão ficando sempre para depois, o que é um pecado.

“Mas você já não conhece Buenos Aires?”, ouvi. Como responder a essa pergunta sem cometer um equívoco? De fato, já havíamos sido apresentadas. Mas, quase sete anos depois, ela já não era a mesma; eu, menos ainda. E pudemos nos reencontrar de um modo muito mais feliz, num momento importante, em que um rosto conhecido (ou esquinas conhecidas, vá lá) eram também um certo reconforto.

Desta vez, a capital argentina me recebeu com chuva – e se despediu da mesma maneira. Achei poético, mas também bastante significativa minha reação. No primeiro dia, os planos de um passeio ao ar livre numa conexão longa até meu destino final foram descartados de imediato – e horas depois a cidade fez questão de me compensar com um pôr do sol encantador, devo dizer. Nem deu tempo de ficar chateada.

No último, para ser bem sincera, o imprevisto fez pouquíssima diferença e até me provocou um sorriso, ao perceber que agora eu já não era a pessoa que encarava isso quase como ofensa pessoal. Sim, eu conseguia achar graça na gente espremida nas lojas, no tênis encharcado com as poças, nas lentes dos óculos embaçadas com as gotas. Havíamos nos reconectado, eu estava ali inteira. Não foi assim da primeira vez, quando eu tinha pressa e achava que um temporal era o fim do mundo.

E, olha, eu não trocaria esses minutos chuvosos pelos dias ensolarados do nosso primeiro encontro. Porque Buenos Aires havia voltado a ser minha. Sem a interferência de terceiros que nem interessados estavam em realmente conhecê-la. Sem a ânsia de querer abraçá-la inteira. Sem obrigações ou amarras. Imprevistos? Sim, mas, para cada linha de metrô interrompida, havia uma senhora disposta a me acompanhar ao ônibus correto, me contando histórias e mostrando, ainda por cima, as belezas do caminho. Para cada companheiro de quarto inconveniente, encontrava alguém disposto a falar um pouquinho que fosse de português para me fazer sentir em casa.

Eu e Buenos Aires já não éramos estranhas, mas havia tanto por descobrir nela… Porque desta vez eu estava mais disponível a me deixar levar por Puerto Madero, a me demorar uns minutinhos no Retiro, a ver beleza no Rosedal, a me surpreender com o Planetario, a encontrar Frida (e outra vez desencontrar do Abaporu) no Malba. Por outro lado, me permiti voltar a lugares que havia guardado num lugar especial da memória e que novamente me fizeram tão bem.

Também não me culpei por ir a tantos outros endereços (imperdíveis, dizem) que simplesmente não cabiam nos meus dias por lá. Nas minhas pesquisas e nas minhas andanças, descobri alguns, confesso, que me despertaram aquela conhecida sensação de desejo e agonia, já que o tempo era menor que meus planos na cidade.

Mas esses foram deixados, convenientemente, para uma próxima visita, que não tarda. Eu volto, Buenos Aires, quantas vezes for preciso. Quanto a gente não deixa de viver e de experimentar por achar que já conhece? Se muitas vezes sou turista na minha própria cidade, que autoridade é essa que ganhamos automaticamente sobre um lugar por tê-lo visto por algumas horas? Mestrado express? Prefiro ser aprendiz enquanto puder e poder sempre me encantar de novo.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas