“Santa Clarita Diet”: zumbis também são um prato cheio para a comédia


Sheila (Drew Barrymore) é uma corretora de imóveis que se transforma em zumbi na série Santa Clarita Diet

Sim, é uma série sobre zumbis. Zumbi, no singular, para ser mais específica. Mas Santa Clarita Diet, nova produção da Netflix, é bem mais do que isso. A produção mais famosa do gênero no ar,The Walking Dead, passa longe das influências, por exemplo, ou qualquer outro drama sobre sobrevivência ao apocalipse e até onde o ser humano chega em situações-limite. O tom de comédia a torna uma parente mais próxima de iZombie (sem, no entanto, o “caso do dia”), mas as referências aqui são outras.

É impossível não perceber ali um quê de Desperate Housewives e sua perfeição hipócrita no subúrbio americano, Dexter e suas questões éticas na hora de cometer crimes, The Americans e a constante ameaça de seus segredos serem revelados porque o perigo mora ao lado e até de Modern Family na dinâmica familiar. Mas a atração não se propõe a ser uma cópia e, graças a personagens carismáticos e atrapalhados, e a um elenco afiadíssimo, consegue encontrar um caminho próprio (e bem divertido), além de desenvolver sua própria mitologia sobre os mortos-vivos.

Na superfície, trata-se da história do casal de corretores de imóveis Sheila (Drew Barrymore) e Joel (Timothy Olyphant), que se depara com a maior crise em seus 25 anos juntos quando ela misteriosamente morre e continua a existir como se nada tivesse acontecido. Exceto por se sentir com mais energia, agir com mais espontaneidade e ter um repentino aumento do desejo sexual. Parece bom, não é? Sheila também acha. Seria ótimo se o preço não fosse precisar comer carne humana. Tamanha novidade não é algo fácil de esconder da filha adolescente, Abby (Liv Hewson), que, assim como o pai, tem dificuldades para se adaptar à nova realidade.

O vizinho nerd Eric ajuda os Hammond a entenderem a nova condição de Sheila

Nesse nível, o mote principal se desenrola com todas as complicações que uma história policial tradicional exigiria. Alguns crimes serão cometidos, certo? Então nada pior que estar cercados por autoridades: o policial Rick (Richard T. Jones) e o xerife Dan (vivido por Ricardo Chavira, o Carlos de Desperate, ó a referência). No entanto, estamos livres de acompanhar mais uma trama no estilo gato e rato porque não estamos falando aqui de assassinos profissionais – e as situações inusitadas entre algozes e vítimas fazem toda a diferença. Sem mencionar que o roteiro de Victor Fresco, criador do programa, não economiza história: algo que poderia se estender por toda uma temporada se resolve em alguns poucos episódios. O ritmo é ágil, o espectador se surpreende e todos ficamos felizes.

No meio disso tudo, porém, o texto levanta outras questões bastante curiosas, envolvendo o núcleo familiar dos Hammond. Sheila traz algumas, claro (quer motivo maior para repensar a vida que morrer?). Mas, apesar de Drew ser a estrela do show, boa parte dos créditos, a meu ver, fica com Joel e a interpretação no tom certo de Olyphant. Os corretores formam um casal fofo: estão sempre preocupados um com o outro, querem tomar conta, se apoiam, fazem de tudo para não magoar o parceiro. E tudo isso torna os momentos de tensão entre eles – seja  decidir se ela vai comer carne congelada ou humana ou o futuro profissional da filha – fiquem ainda mais divertidos.

Joel e Sheila prontos para o combate em Santa Clarita Diet

Mas é nos ombros de Joel que cai a responsabilidade de investigar o que transformou sua mulher numa morta-viva (percebeu que não mencionei nenhuma epidemia de vírus ou ataque de alguma horda zumbi?) e como curá-la, se é que isso é possível. Enquanto isso, ele tenta provar que consegue dar conta da nova vida e das tarefas que precisa assumir daqui para a frente, mas está assustadíssimo com o que está acontecendo – e ainda pode acontecer – com sua família. “Somos corretores de imóveis!” é a frase que ele costuma exclamar quando se vê diante de outra circunstância absurda que, obviamente, ele não estava preparado para enfrentar. Além disso, tem que manter o pulso firme enquanto a mulher é impulsiva ao extremo, mas dá de cara com as próprias fragilidades.

A dinâmica do casal também faz contraste com os dois principais personagens secundários da série: Abby, cada vez mais inconformada com a vida que levava até então e em constante busca de aventura, e seu vizinho, Eric (Skyler Gisondo), o típico nerd solitário que sofre bullying e tem uma paixão platônica. Eles funcionam bem em dupla e como complemento do quarteto que guardam o maior segredo de Santa Clarita, cidade no condado de Los Angeles onde a história se passa. Como se não bastasse, a série ainda cria baita coadjuvantes como a impagável atendente Ramona (Ramona Young).

A primeira temporada termina num senhor cliffhanger (são só dez episódios) e mal dá para esperar pela segunda. Vida longa a Santa Clarita Diet!

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas