Sob o céu de Berlim: as locações de “Asas do Desejo”


Bruno Ganz como o anjo Damiel no filme alemão "Asas do Desejo"

Bruno Ganz como o anjo Damiel no filme alemão “Asas do Desejo”

Berlim foi um caso de amor, mesmo sob o céu insistentemente cinzento em pleno verão. Uma cidade que respira história, cultura, cinema. Desde que entrou na minha mira, um roteiro era certo: seguir os passos de Damiel (Bruno Ganz), o anjo que quer ser humano em Asas do Desejo (1987) – favor não lembrar que um dia Nicolas Cage cometeu o pecado de tentar o mesmo papel no remake americano, Cidade dos Anjos).

É claro que hoje a capital alemã está bem diferente do que se vê na tela, mas aquele retrato poético da cidade, ainda dividida pelo muro, povoava o meu imaginário. E é por alguns dos cenários do filme de Wim Wenders que o post de hoje passeia. Faltaram muitos, que estão no topo da lista para uma segunda visita a este lugar incrível. Não demoro, Berlim.

Asas do Desejo

Uma das locações mais emblemáticas do filme é a Biblioteca Estatal, onde Damiel e Cassiel (Otto Sander) passam um bom tempo ouvindo pensamentos e angústias dos humanos. Era o lugar que eu tinha certeza que precisava visitar (ver galeria abaixo). Na entrada, a atendente me pediu para preencher uma ficha de visitante e informou que existe uma visita guiada às sextas-feiras. O único pedido foi não fotografar com flash. Acho que ninguém entendeu bem porque eu fotografava tanto o interior de uma biblioteca…

Biblioteca Estatal de Berlim

Biblioteca pública de Berlim

O prédio fica quase em frente à Filarmônica de Berlim (que tem apresentações gratuitas às terças-feiras) e bem perto da Potsdamer Platz, onde fica o famoso complexo comercial Sony Center, com cinema, restaurantes e a imperdível Cinemateca. A própria praça, aliás, é cenário do filme, mas hoje está irreconhecível. No longa, é um grande descampado. Hoje, no entanto, é possível ver um pedaço do muro, lembrando que até pouco tempo atrás, liberdade de ir e vir era algo impossível. E Berlim faz questão de preservar suas memórias, inclusive as mais doloridas. Não é ignorando o passado que se constrói um futuro, afinal.

Um dos mais famosos monumentos da cidade, a Coluna da Vitória (Siegessäule), construída para comemorar triunfos militares da Prússia sobre a Dinamarca, a Áustria e a França, entre 1864 e 1871, é também marcante na história. É dali que os anjos observam o movimento da cidade – e você pode fazer parecido, indo até a plataforma de observação. No topo, está a estátua de bronze da deusa Vitória, que pesa 35 toneladas e também dá o ar da graça no clipe “Stay, Farway so Close”, do U2 – música da trilha de Tão Longe, Tão Perto (1993), continuação de Asas do Desejo.

A coluna fica no meio do parque Tiergarten, maior área verde da cidade, onde os berlinenses correm e andam de bicicleta. Deve ser um passeio agradável num dia ensolarado, mas não me empolgou muito quando estive por lá, por conta do clima chuvoso.

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A Coluna da Vitória, em Berlim, é ponto de observação para os anjos de “Asas do Desejo”

Nosso roteiro segue por uma região menos turística, meio por acaso, confesso. Já que estava perto do Museu Judaico, resolvi marcar no mapa o parque Theodor-Wolf. Foi nesse espaço que o Circo Alekan levantou sua tenda no filme, e onde a trapezista Marion (Solveig Dommartin), paixão do nosso protagonista, dormia em seu trailer. Não espere nada demais, além de alguns belos grafites pelas construções da redondeza. Se você chegar lá de metrô (U-Bahn) e descer na estação Hallesches Tor, provavelmente vai avistar o monumento Friedenssäule, na Mehringplatz, que aparece de relance no início do filme.

Para encerrar nosso (enxuto) tour, uma das minhas surpresas pela cidade: a igreja Kaiser-Wilhelm Gedächtniskirche, que eu não teria visitado se não fosse o filme. Reconhece o telhado danificado, onde Damiel e suas enormes asas olham para Berlim do alto? O que parece defeito é mais um episódio de história viva, no centro da cidade, na região próxima ao zoológico de Berlim.

A torre é o que restou do templo, bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial e que agora funciona como um memorial. Ao lado, existe uma nova igreja (que tem apresentações de coral e concertos de órgão com entrada gratuita) e uma nova torre.

Mas é mesmo no memorial, que contém peças da antiga igreja (o Cristo original, atingido pelas bombas) e painéis que contam a história do lugar, que o passeio fica completo. Entrar ali e ver um pequeno efeito da destruição é de um efeito poderoso, que não consigo descrever. É uma mini-viagem no tempo, é pensar em tudo que a humanidade perdeu no meio do caos da guerra, inclusive vidas. Berlim é uma lição em cada esquina.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas