Tour guiado no Rio: descobrindo o bairro da Glória


Apesar de ficar na Zona Sul do Rio de Janeiro, a Glória é – como bem definiu o guia do nosso passeio – um bairro de fronteira: colado à Lapa, numa subida para Santa Teresa e ligando o Centro ao Catete e o Aterro do Flamengo, o lugar tem seu charme próprio além de muita história. E num belo sábado de sol, lá fomos nós acompanhar o grupo guiado do projeto Turista Cidadão descobrir esse pedacinho do Rio de Janeiro pouco conhecido por cariocas e turistas.

O ponto de encontro foi na saída do metrô Glória, e logo que o grupo estava reunido, começamos o trajeto. Apesar de curto, foi bastante interessante e cheio de curiosidades. É muito bacana se dar conta de que aquela paisagem por onde transitamos rotineiramente esconde segredos e história que nós nem imaginamos.

Relógio da Glória

Relógio e balaustrada: patrimônio do Estado

O primeiro ponto de visita foi o relógio da Glória. Posicionado ao final de uma bela balaustrada (uma espécie de cerca) que antes delimitava a praia da Glória, é um marco urbanístico da cidade: o projeto urbanístico de Pereira Passos, que pretendia urbanizar a cidade e transformá-la na Paris dos Trópicos, trouxe pavimentação, luz elétrica e adornos para as ruas. Monumento tombado pelo Estado, juntamente com a balaustrada, fica quase escondido em meio ao bairro. Ali perto existem outros atrativos como um antigo chafariz, que servia água potável para a população (principalmente para os que acabavam de desembarcar depois de meses no mar), a Praça Paris (uma praça pública inspirada nos jardins de Versalhes) e mais distante, o Monumento dos Pracinhas – onde estão depositados os restos mortais dos combatentes brasileiros na Segunda Guerra Mundial. Mas não seguimos naquela direção: fomos para dentro do bairro, descobrindo o charme dos prédios antigos e suas histórias.

Igreja Positivista Brasileira

Templo da Humanidade, sede da Igreja Positivista

Esse é um marco interessante do tour e da nossa própria História. Aqui é um templo não religioso – o Templo da Humanidade – onde ainda se pratica a doutrina Positivista criada pelo filósofo francês Augusto Comte. A Igreja Positivista do Brasil foi criada por Miguel Lemos e Teixeira Mendes em 1881 e sua influência sobre a elite fica evidente quando descobrimos que o lema “Ordem e Progresso” de nossa bandeira foi cunhado de um pensamento positivista – que, aliás, está estampado na fachada do prédio. Nossa visita foi limitada ao exterior, uma vez que o prédio está interditado por conta de obras para reforma, mas foi amplamente recompensada pela presença da diretora de patrimônio da igreja, Christiane Souza. Em poucos minutos, ela explicou mais sobre o que é a filosofia positivista, como se originou, sua forte presença na elite carioca e consequente influência na política da época. Certamente, foi um dos pontos mais surpreendentes do passeio.

Hospital da Beneficência Portuguesa

Detalhe da entrada, espiada pelas grades do portão

Bem em frente à Igreja Positivista ficam os fundos do hospital. Dando a volta no quarteirão, vemos a sua entrada magnífica. O prédio está fechado desde o processo de falência da instituição (o hospital sofreu com a má administração e se afogou em dívidas, que levaram a um polêmico leilão do terreno e desmantelamento da rede atendimento), mas é provável que ele volte a funcionar em breve: uma das maiores redes de hospitais do país comprou o prédio e pretende restabelecer o funcionamento. Polêmicas à parte, a beleza e importância do complexo são inegáveis. Criado como uma instituição de auxílio aos portugueses imigrantes e residentes no país, ampliou sua abrangência até tornar-se um dos maiores hospitais do país – que atendia de graça aos seus associados, desde o nascimento até o funeral. Vimos apenas um pedaço da fachada, com escadaria em granito e belas estátuas ressaltando os navegadores portugueses Vasco da Gama e Cristóvão Colombo. Facilmente passaria por um hotel de luxo, para quem não o conhecesse.

Depois de uma pequena pausa para um lanche e uma perna mais longa no trajeto (passando por alguns pontos interessantes, como a sede da Arquidiocese do Rio – onde o papa Francisco ficou hospedado quando visitou a cidade – e o monumento em homenagem à descoberta do Brasil), seguimos em direção à Praça Luís de Camões. Três pontos de interesse nos esperariam antes de subirmos até a Igreja da Glória, ponto final da nossa jornada.

Estátua de São Sebastião e Memorial Getúlio Vargas

Na Praça Luís de Camões, a estátua do padroeiro

Bem próximos um do outro, aqui temos uma curiosidade: o monumento ao santo padroeiro da cidade é uma das mais belas estátuas da cidade, enquanto a enorme escultura da cabeça do ex-presidente homenageado é feia que dói! O contraste é gritante, e não passa despercebido aos turistas. Enquanto São Sebastião atrai olhares e fica à vista, o próprio memorial é um espaço bastante escondido. Subterrâneo, nem a entrada é visível (parece uma entrada do metrô) – embora fique bem perto da estátua horrorosa. Esse porém é um local interessante – e vai ganhar um post sobre ele em breve. De lá, seguimos até a monumental entrada de um dos maiores ícones do bairro.

Hotel Glória

A fachada, mesmo inacabada, ainda é majestosa

Criado para ser O hotel, teve seus momentos de glória (com perdão do trocadilho) desde sua inauguração até os anos 1950: com a saída da capital federal para Brasília, caiu muito o fluxo de hóspedes – embora o charme e a fama do hotel ainda atraíssem turistas abastados. Artistas e políticos, aliás, além da nata da sociedade, eram o público alvo do empreendimento. Criado para ser o primeiro hotel de luxo da cidade, foi o primeiro a ter classificação 5 estrelas no país e o primeiro a ser construído em concreto armado. O em estilo clássico conta com 150 quartos, um teatro, um cassino, área de lazer e salões de festas – famosos pelos bailes de gala e concursos de fantasia de carnaval. Em 2008, o hotel entrou em falência, e logo fora arrematado pelas empresas de Eike Batista que pretendia retomar os tempos áureos do Glória. O projeto ambicioso ficou inacabado: em meio a mudanças seguidas de projeto, veio a falência do próprio empreendedor.

O que conseguimos ver agora é apenas o exterior: as obras, que foram iniciadas e interrompidas por tempo indeterminado, não permitem visitação. Mas só isso já basta para nos fazer imaginar o esplendor do hotel nos seus melhores dias. A imponente estrutura hoje está se deteriorando, mas ainda é majestosa. Há boatos de investidores estrangeiros interessados em transformá-lo em um hotel 6 estrelas – o que o tornaria o primeiro do país e traria uma nova página de pioneirismo para a história do Glória, mas não há certeza.

Igreja de N. S. do Outeiro da Glória

Para fechar o passeio, retornamos um pouquinho no trajeto e fomos subir o Outeiro da Glória. Para quem tem dificuldade de locomoção, tem um plano elevado que liga a praça Luís de Camões até a Ladeira da Glória, mas há quem prefira subir as escadas ali na lateral ou subir a própria ladeira (que começa, na verdade, do outro lado do quarteirão – acesso pela rua Antônio Mendes Campos). Optamos pela subida da ladeira, que apesar de ser pequena e não muito íngreme, é bastante cansativa – ainda mais depois de um dia caminhando! A chegada lá, porém, é recompensada com uma bela vista do Rio: dá para ver os prédios da região da Cinelândia, a Praça Paris, a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar ao fundo. Quer mais? Tem mais.

Subindo pela Ladeira da Glória, é essa a vista que temos da igreja

A palavra “outeiro” significa “morro pequeno”, e foi aqui nesse morro que se deu uma passagem importante para a fundação do Rio de Janeiro: a última batalha para a reconquista da cidade. Os franceses haviam se aliado aos índios tupinambás e aqui fizeram seu último refúgio contra os portugueses, porém não foi o suficiente. Aqui Estácio de Sá, o fundador da cidade e libertador da dominação francesa, levou a flechada que o levaria à morte poucos dias depois. Anos depois, foi construída uma pequena ermida (uma capela) em homenagem à Nossa Senhora da Glória. Considerada uma joia da arquitetura colonial – composta por dois octógonos unidos, como se desenhasse um 8, era a igreja logo tornou-se a preferida da família real. Aqui foram batizados vários membros da realeza, inclusive o príncipe D. Pedro II e a princesa Isabel. Essa preferência real alçou uma aura de “coisa chique” frequentar a diocese, e até hoje realizar uma cerimônia no local é sinônimo de status. A pequena construção é bastante sóbria e régia, porém bastante acolhedora. Ha belíssimos painéis de azulejos portugueses no interior decorado, e um belíssimo altar-mor – um detalhe interessante é a presença do brasão real nele, que identificava a parte utilizada pela família imperial. E foi à sombra da igreja que o passeio de encerrou. Aos poucos o grupo se dispersou e fomos procurar um local para almoçar e aproveitar o resto da tarde.

Balanço geral

E como não podia deixar de ser, fizemos uma análise do passeio. Há algumas informações importantes a se considerar aqui: primeiro, os passeios do Turista Cidadão são uma atividade dos alunos de Turismo de uma universidade particular; ou seja, acabam sendo uma aula de história ao ar livre. Portanto, se essa não é a sua vibe, procure outro tipo de tour a pé. Existem roteiros dos mais diversos tipos organizados por guias profissionais – que tem um cronograma mais ajustado a um passeio do que uma aula. É fácil achar eventos do tipo em páginas no Facebook, por exemplo, ou em agências especializadas. Listamos rapidamente os prós e contras dessa experiência.

Prós

  • tour virtual: quando fazemos a inscrição, eles disponibilizam por email um arquivo .pdf para os turistas, que podem levar impresso ou no próprio celular durante o passeio. Nesse arquivo, slides mostram fotos antigas que ajudam a fazer o comparativo em tempo real com o que estamos vendo ao vivo.
  • conhecer detalhes: mesmo conhecendo alguns dos locais apresentados no cotidiano, muitos outros próximos podem passar despercebidos – um guia experiente, porém, sabe onde estão e o que te mostrar.
  • andar em grupo é mais seguro: alguns locais não são indicados para turistas solitários porque eles se tornam alvos fáceis de crimes de ocasião. Distraídos, podem facilmente ser abordados e furtados – em qualquer lugar do mundo. A presença de um grupo geralmente inibe esse tipo de ação, e dá mais segurança para os participantes.
  • guias especializados: nada como ouvir a história sobre um lugar de quem realmente sabe o que está falando. Guias geralmente tem contato diário com os locais e trazem informações que não se encontram em livros ou sites na internet.

Contras

  • tempo de espera: por mais que se marque um horário razoável para que todos cheguem e ainda haja um prazo de tolerância, tours sempre atrasam. Com um grupo muito grande a coisa piora, pois quanto maior o grupo, mais tempo leva para se deslocar. E aí é um tal de ter que esperar o restante do grupo chegar para ouvir a explicação…
  • tempo do roteiro: nesse caso específico, o tempo programado era de 4h de passeio. Achei bastante prolongado, tendo em vista o trecho bastante curto que percorremos. Não tiro o mérito das explicações, que foram sempre bem humoradas e interessantes, mas como o objetivo era uma aula (e não um passeio turístico), acabou sendo um pouco longo demais.
  • trajeto: é legal querer terminar o passeio em um dos pontos com a vista mais bela, mas acabou sendo cansativo andar pelo bairro e passar em frente ao monumento, seguir adiante e depois retornar. Alguma outra solução para uma circulação mais orgânica seria o mais indicado, porém já sabíamos de antemão isso.
  • perfil do turista e do grupo: nem todos seguiram até o final, principalmente por conta do adiantado da hora. Para um passeio que começou por volta das 10h de um sábado, terminar por volta das 14h-15h foi um longo período para muitos. Se lembrar que sábado é um dia que muitos aproveitam para, além de curtir uma folga, resolver coisas pendentes da semana, fora atropelar o horário de almoço, era fácil de prever que isso aconteceria. Outros problema era também o grupo ser muito grande: era impossível não embolar todo mundo em lugares que, às vezes, eram pequenos demais – mesmo estando na rua. Se pudesse optar, escolheria refazer esse passeio num grupo menor, para aproveitar mais as explicações.

Se você gosta de aprender mais sobre a cidade onde mora (ou a que vai visitar), fica a dica de procurar um tour à pé. É fácil encontrar várias opções – algumas são até sazonais, explorando festas e comemorações, lendas, e outros aspectos culturais – a seu gosto e bolso (alguns são até gratuitos), basta se programar e separar um dia para aproveitar bem o passeio. Bom passeio!

Leia também


About Geisy Almeida

Formada em Fotografia, fã de boas estórias que sejam bem contadas - não importa se em forma de livro, filme, novela ou bate-papo. Curiosa e interessada em muitos assuntos, às vezes viajo na maionese.