Uma viagem não se mede pelo número de lugares que você visita


Cinque Terre, Itália

Certa vez, comentei com um recém-conhecido que havia feito a eurotrip 2016 em um mês, e o primeiro comentário que ele fez foi: “Nossa, deve ter conhecido a Europa inteira!”. Eu ri, porque achei que isso era impossível – até para alguém que more no continente. Em outra ocasião, um colega perguntou sobre os lugares que eu havia conhecido nessa mesma viagem. Enumerei os países (foram quatro) e ele rebateu, na lata: “Só isso?”. Eu me espantei, porque eu vivi tanta coisa neles que não trocaria minhas escolhas por nada. Quem foi que disse que uma viagem se mede pelo número de lugares que você visita?

Juntando uma afirmação com a outra – ambas bastante contraditórias até -, me dei conta de que as pessoas gostam de formatar as coisas dentro de caixinhas, o modelo que serve para todo mundo. Como dizem 99% das mães, nós não somos todo mundo. O estilo de viagem que me faz feliz pode te deixar entediado, e vice-versa. E até isso pode mudar, já que a viajante que sou hoje não é a mesma que fui ontem.

Planejar uma viagem, para mim, funciona como montar um trabalhoso (e prazeroso) quebra-cabeças. Começa com muita pesquisa em blogs, sites, revistas, guias, filmes… Tudo vira fonte de inspiração para, enfim, decidir o que visitar – ou, pelo menos, estabelecer algumas prioridades. E é bem nesse momento que começa a tentação: mas esse lugar fica muito perto desse outro!, dá para fazer um bate-volta de trem!, no meio do caminho entre essa cidade e a outra tem como conhecer uma terceira!. Logo, aquele roteiro de 20 dias vai precisar de uns três meses para ser cumprido.

Sevilha, Espanha

Volta e meia me deparo com esse problema, por pura ansiedade de conhecer outras coisas (e, vá lá, por uma certa tendência a querer abraçar o mundo). Mas venho aprendendo a aceitar que é impossível conhecer tudo numa viagem só. Então, por que não tentar aproveitar ao máximo o lugar onde estou ou visitar os arredores e abrir mão de longos deslocamentos só para dizer que cruzei mais uma fronteira? Pensando assim, já encaixei entre Madri e Barcelona, as cidades mais badaladas da Espanha, um roteiro na apaixonante Andaluzia, e recentemente cortei uns três países do leste europeu para passar 15 dias na minha sonhada Itália. Se eu estivesse preocupada em passar por todas as capitais possíveis, deixaria de conhecer alguns tesouros.

Claro que voltei de cada lugar achando que faltou muita coisa. E vai ser assim sempre. Mas o foco precisa ser tudo que eu tive oportunidade de vivenciar por onde passei. Nas próximas férias, aliás, talvez eu escolha bem poucas ou até uma única cidade base. E que mal há nisso? Se existe uma coisa que odeio é fazer check-out e check-in repetidamente. É tão mais libertador passar uns cinco dias dormindo na mesma cama, fazer o mesmo caminho de volta, repetir aquele restaurante (lanchonete, sorveteria, café, podrão, whatever) que você curtiu… É um pouco como se sentir em casa. Eu me senti assim em Londres e Berlim, por exemplo, dois lugares que eu não queria deixar de jeito nenhum!

Mais do que a quantidade de carimbos no passaporte vale a experiência que a gente vive em cada lugar – inclusive na nossa própria cidade, algo que o Roteiro Adaptado tem me ajudado a melhorar. É claro que não há nada de errado em uma viagem estilo “volta ao mundo”, pulando de aeroporto em aeroporto. O que não dá é determinar que alguém tenha que pensar como você ou como eu. A gente não viaja justamente para se deparar com as diferenças, com as novidades? E o melhor é que a gente volta na bagagem com outro eu.

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About Giselle de Almeida

Carioca, jornalista, estudante de cinema, gauche na vida. Pareço legal, mas tento convencer os amigos a verem minhas séries favoritas